Sempre tive um fascínio por aeroportos, não apenas porque gosto de viajar, mas porque sempre achei que há qualquer coisa de profundamente humana nesses lugares. Gosto particularmente das chegadas, daquele momento em que as pessoas ficam de olhos postos numa porta à espera de reconhecer um rosto e, de repente, alguém aparece e tudo muda. Os passos aceleram, os braços abrem-se, surgem os abraços, os sorrisos e, muitas vezes, as lágrimas. Provavelmente, é essa a razão pela qual gosto tanto de observar chegadas: durante alguns minutos, ninguém parece preocupado em esconder que sentiu a falta de alguém.
Há dias, uma conversa com dois trabalhadores de um aeroporto levou-me a olhar para aquele espaço de outra forma. Falávamos sobre passageiros e ambos desabafavam sobre a falta de empatia que observam no atendimento, sobretudo perante pessoas mais velhas, alguém que não domina a língua, que não percebe uma indicação ou que simplesmente está desorientado.
Um deles dizia que, independentemente da literacia, da experiência de viajar ou da segurança que cada pessoa aparenta ter, um aeroporto é um lugar que provoca ansiedade. Há horários, portas que mudam, filas, documentos, malas, regras, avisos e aquela sensação de que podemos estar atrasados ou no lugar errado. Por isso, dizia ele, não custa nada sorrir, explicar novamente ou simplesmente facilitar a vida de quem está à nossa frente.
Até aqui, nada de extraordinário, pelo menos para mim.
À medida que a conversa avançava, contaram-me que, por trabalharem dessa forma, se sentem uma espécie de aves raras. Até a supervisão estranha, por vezes, a disponibilidade com que atendem os passageiros, como se existisse “simpatia a mais”.
Fiquei presa à expressão e pensei: em que momento a gentileza começou a ser algo excessivo?
O aeroporto é um lugar particularmente interessante para pensar sobre isto porque concentra, no mesmo espaço, muitas das diferenças que existem cá fora. Não viajamos todos da mesma maneira: há quem passe pela classe executiva e quem siga para a económica, quem espere num lounge e quem procure uma cadeira livre junto à porta de embarque. O dinheiro compra conforto, prioridade, espaço e algumas facilidades, e seria ingénuo fingir que essas diferenças desaparecem quando entramos num aeroporto.
Mas há um momento em que atravessamos o mesmo túnel, entramos no mesmo avião e seguimos na mesma direção. Podemos estar sentados em lugares diferentes, ter experiências completamente distintas e chegar ao destino mais ou menos descansados, mas durante algumas horas estamos todos dentro daquela estrutura, suspensos a milhares de metros do chão, dependentes de pessoas que provavelmente nunca vimos antes.
Podemos comprar lugares diferentes, mas não compramos uma condição humana diferente.
Acho que foi por isso que me voltou à memória uma expressão que ouvi há muitos anos: “pessoas são pessoas, não importa os extras”. Quanto mais o tempo passa, mais sentido lhe encontro, porque antes do cargo, do uniforme, do estatuto, da profissão, da origem ou do lugar onde estamos sentados, há sempre uma pessoa diante de outra pessoa.
Foi curioso perceber como uma conversa simples, aparentemente banal, sobre o dia a dia de trabalho num aeroporto acabou por me levar muito para além daquele lugar. Porque, no fundo, não estávamos apenas a falar de passageiros ou de atendimento. Estávamos a falar do que acontece quando sorrir, explicar uma segunda vez, ter paciência ou tentar facilitar a vida de alguém deixa de ser entendido como uma forma natural de nos relacionarmos e começa a parecer excecional.
É isso que mais me inquieta nesta história: não que existam pessoas particularmente gentis, mas que tenhamos começado a achar estranho que alguém o seja.
Não sei quando foi que ser gentil passou a poder ser considerado “simpatia a mais”. Sei apenas que, se chegámos ao ponto de achar estranho quem escolhe tratar os outros com humanidade, talvez o problema não esteja na gentileza.
Provavelmente está em quem a estranha.


