A política do Amor: “Eu não casei com homem negro à toa”
Para quem olhamos com desejo? Com quem nos imaginamos a construir uma vida ideal? Que imaginários acompanham pessoas negras e brancas?
Ficou-me gravada aquela reacção de espanto que, como tantas outras do género que me ‘atropelavam’ naquela fase da vida, me deixou paralisada e sem palavras. “Como é possível?”, perguntava ele, sem se demorar nos pensamentos: “Só podem ser cegos ou burros!”.
O erro de diagnóstico, para mim evidente, mas para a maioria que me rodeava aparentemente imperceptível, mantinha oculto o mal denunciado naquela entrevista que, inesperadamente, se tornou tema de conversa.
No centro da discussão encontravam-se declarações da actriz brasileira Taís Araújo sobre uma das marcas da sua adolescência: o desacontecimento do Amor romântico.
Preterida nos beijos e nos afectos, a icónica Xica da Silva contava como foi ficando para trás no movimento de adolescer, enquanto quem a lia não desarmava a incompreensão: “Como é possível?”.
Eu, que estava cansada de saber a resposta, calei-me, por me sentir incapaz de lidar com novas perguntas, que me obrigariam a revelar-me negra nas normatividades de grupo, quando até aí estava habituada a revelar-me negra exclusivamente nas minhas especificidades.
Como abrir uma porta de discussão para a qual eu nem sequer tinha a chave? De que forma explicar que a experiência de exclusão amorosa da actriz Taís Araújo também era a minha, e de tantas outras jovens negras em contextos de maioria branca? O que aconteceria depois de trazer o racismo para a mesa? Estaria eu preparada para lidar com a sua redução a expressões individuais de ignorância, e não a um problema estrutural das nossas sociedades?
Hoje sei que não estava e, por isso, a conversa terminou com uma ingénua – porém convincente – manifestação de interesse. “Ai, se fosse comigo! Os outros só poderiam ser cegos ou burros para ignorar uma miúda tão gira”.
Aos olhos do meu amigo – branco não racista mas também não anti-racista –, parecia impossível que a agora idolatrada actriz brasileira pudesse ter sido rejeitada pelos vizinhos de condomínio e colegas de colégio por ser negra. Daí não lhe ter passado pela cabeça que por mais bonita, inteligente e espectacular que ela fosse, a sua desejabilidade estaria sempre ‘arruinada’ pela sua negritude.

Exactamente como observou a sua amiga e então colega Lívia, que “escutou os meninos falando assim: ‘A Taís não dá, porque é preta. A Taís não dá’”.
Se Lívia não tivesse ouvido o que ouviu, conseguiria perceber que a rejeição da amiga era racialmente motivada?
Talvez não. Mais ainda porque, como conta a actriz, no videocast “Conversa vai, Conversa vem”, Lívia namorava com um colega negro que acabou por se tornar seu marido, algo que, acrescento eu, pode criar uma ideia irrealista de abertura racial.
“Lembro da Lívia vindo muito desesperada”, recorda Taís, expondo um efeito comum em quem não está familiarizado com a violência racial – a incredulidade, nessa ocasião formulada numa pergunta de indignação: “Por que eles falaram isso?”.
A resposta é óbvia: porque são racistas, e enquanto agentes que beneficiam do privilégio de viver numa sociedade estruturalmente racista, eles disseram o que disseram. Podem até ter mau gosto e ser ignorantes, mas são fundamentalmente racistas.
E é à luz dessa consciência que as palavras de Taís Araújo no “Conversa vai, Conversa vem” ganham dimensão política: “Eu não casei com homem negro à toa”.
Até porque, por mais que nos tentemos convencer de que as nossas escolhas românticas são afectivamente determinadas, em que medida acreditamos que as ‘preferências’ são imunes às construções sociais?
Para quem olhamos com desejo? Com quem nos imaginamos a construir uma vida? Que imaginários acompanham pessoas negras e brancas?
Não é à toa que Taís Araújo e Lázaro Ramos estão juntos. É uma questão de consciência com dever de resistência. Porque, como escreveu bell hooks, “somente o acto e a prática de amar a negritude nos permitirá ir além e abraçar o mundo sem a amargura destrutiva e a raiva colectiva corrente”. Amorosamente.

