A saia da minha mãe – entre o dever e o poder de excelência
Como não lutar pelo direito a Ser Humano?
A 7 de Abril comemoro o Dia da Mulher Moçambicana, celebrando aquela que fui, a que sou, e aquela que me continuo a construir para ser, cada vez mais consciente das minhas heranças femininas e feministas.
Sou e estou a partir da minha bisavó muçulmana, que rompeu as amarras de um casamento arranjado. Também sou e estou a partir da minha avó com dotes de cura, que colocou ao serviço de tantas crianças. Sou e estou, ainda, a partir da minha mãe, protagonista, entre tantos outros, de um episódio que, nos últimos tempos, revisitei várias vezes ao recordar a minha infância.
Não sei precisar se estaria na 2.ª ou na 3.ª classe, mas nunca me esquecerei de como me senti vista e reconhecida. Não pela criança que era, mas pela criança que deixei de ser: um estereótipo de menoridade intelectual.
O milagre da minha ‘elevação’ deu-se a partir de um TPC, em que se pedia que construíssemos várias frases com a palavra “saia”. Havia outras premissas para o exercício, que não consigo enumerar, mas guardo até hoje como, aos olhos da professora, passei a existir.
Tudo porque, entre as possibilidades de resposta que apresentei, construídas com a providencial ajuda da minha mãe encontrava-se esta: “Peço-lhe que saia da minha frente”.
Entre o maravilhada e o perplexa, a professora deixou evidente que não tinha pensado numa opção para além do substantivo, e eu percebi que aquele era um bom lugar para se estar: o de aluna que se destaca.
Daí para a mania da perfeição demorou um nada: se até esse momento eu era naturalmente interessada nos estudos, porque tinha curiosidade em aprender e, por isso tirava boas notas, a partir desse episódio passei a estar obsessivamente motivada em estudar. Não apenas para aprender, mas para saber mais do que os outros e, dessa forma, sobressair.
Falei dessa armadilha da afirmação pela validação externa numa conversa recente, a propósito do lançamento do livro “25 de Abril Sempre! - 50 anos de protestos e resistências”, para o qual tive a felicidade de contribuir.
Munida da liberdade de escrever 4.000 e poucos caracteres, inspirei-me num dos incontáveis cartazes que trago de inúmeras manifestações. Nele se lia, em capitulares manuscritas: “Do luto à luta” – mensagem que, naquele momento (em 2021), mobilizava centenas de nós em torno da morte de Danijoy Pontes, jovem são-tomense encontrado sem vida, em circunstâncias suspeitas, no Estabelecimento Prisional de Lisboa.
À primeira vista, o protesto por Danijoy pode parecer desligado da minha vivência pessoal – ainda que seja indissociável da nossa história colectiva –, mas a verdade é que nem só de mortes nos pesam os lutos.
Sinto o luto como um lugar de ausência e de perda, que pode ser criado por experiências não exclusivamente obituárias, como traições, desilusões, violências e traumas.
Aliás, num dos episódios da nossa segunda temporada de conversas – que pode ser escutado aqui –, a psicóloga clínica Luana Cunha Ferreira fala-nos sobre o luto que acompanha o fim de um vínculo matrimonial.
Não é, contudo, na separação romântica que me tenho detido. O luto que me mobiliza para as lutas vem de um processo secular de subtracção da nossa Humanidade, e de apagamento, invisibilização e silenciamento da presença negra no mundo.
Como não lutar pelo direito a Ser Humano?
À medida que vou preenchendo uma série de vazios que marcam a nossa História, encontro uma maior compreensão de mim própria, da minha família, e das engrenagens estruturais que continuam a fazer com que tenhamos de gritar, entre contestações de rua: “Vidas Negras Importam”.
Importam não mais do que todas as outras – sublinhe-se – mas em paridade de valor humano, algo que há mais de cinco séculos vem sendo impossibilitado. Primeiro pela Escravatura, depois pelo Colonialismo e agora pelo Capitalismo.
A cada época, pessoas negras resistiram e lutaram contra a opressão, realidade que nos vem forjando num corrosivo dever de excelência.
Foi nele que me fiz estudante e profissional, e é dele que me tenho tentado libertar, substituindo-o por um dever de humanização. Para que a excelência se transforme num poder e não num fardo.