“Afro-ascendentes”: a pertença cabe em palavras?
Quanto poder habita num clube de leitura, ou num núcleo de escrita colaborativa?
Separadas por cerca de 1.400 quilómetros, eu em Lisboa, e a professora Dulce Correia na ilha açoriana de Santa Maria, encontrámo-nos online.
Lado a lado, entre quadrados de ligação Zoom, trocámos ideias sobre o documentário da jornalista Diana Andringa, “Era uma vez um arrastão” (2005), instigadas pelas questões da investigadora Laura Alves, doutoranda do Instituto Superior Técnico, e minha ex-parceira de conversas n’ O Lado Negro da Força.
Agora integrada no Centro de Biotecnologia dos Açores, num projecto que também envolve a startup Cell4Food, foi a Laura quem teve a iniciativa do encontro, concretizado em formato híbrido na última sexta-feira, 21, com uma proposta de reflexão: “(Des)Construção de Narrativas: os media e o racismo”.
O mote, inspirado no documentário, juntou-me à conversa com a professora Dulce, a partir do virtual, enquanto um núcleo de entusiastas acompanhava tudo no intimismo da livraria “Lar Doce Livro - Home Sweet Book” – reconhecida como um pólo de cultura na cidade de Angra de Heroísmo.
Trago este extenso enquadramento como introdução, porque foi dele – território de encontros femininos negros – que brotou mais uma palavra-flor das minhas raízes: “Afro-ascendentes”.
Passei a habitá-la no exacto momento em que a escutei, na voz da Dulce, arrebatada pelo estrondo do significado que imediatamente lhe reconheci: casa de ser, crescer, ficar, fortalecer e transcender.
Alegro-me com palavras assim – capazes de me aninhar, confortar e elevar –, e “Afro-ascendentes” passou a ser uma delas, afectuosamente enraizada à medida de séculos de resistência, excelência, consciência e sapiência negra.
Como pode tanta pertença ocupar uma única palavra?
À medida que me aproprio de cada letra, e lhe atribuo múltiplos sentidos, pergunto-me quantos significados, memórias e vidas cabem em “Afro-ascendentes”.
Penso também para onde vão as experiências, sentimentos e emoções que não se traduzem exclusivamente por palavras, e ocorre-me que talvez a música seja um destino.
Será por acaso que as grandes vozes, nomeadamente da Soul (Alma) são negras? Teríamos conseguido afro-ascender e afro-transcender sem Blues, Jazz, e manifestações como a capoeira e o batuku cabo-verdiano?
Ao mesmo tempo que encontro nas composições, gestos e ritmos históricos, estratégias de sobrevivência, também identifico na literatura uma espécie de laboratório de novas expressões e possibilidades de interpretação, compreensão e reconfiguração de realidades não-universais.
Da “Dororidade” de Vilma Piedade, às “Escrevivências”, de Conceição Evaristo, até que ponto estamos conscientes de que podemos edificar comunidades de pertença a partir do vocabulário que criamos e recriamos?
Quanto poder habita num clube de leitura, ou num núcleo de escrita colaborativa?
Num quotidiano tão carente de fazeres e saberes colectivos, comprovo, a partir de uma experiência recente de tradução partilhada, como uma mesma palavra lida por três pessoas ganha pelo menos três interpretações diferentes, que têm tanto de único quanto de semelhante.
Mas, como chegar a este encontro de perspectivas, aprendendo a ampliar, entrecruzar e conciliar olhares? Acredito que com a expansão da consciência de que uma língua comum não é necessariamente uma língua partilhada.