Chorei à primeira, também à segunda, e novamente à terceira. Chorei até parar de contar, sem que um só sinal de dessensibilização me viesse interpelar. Pelo contrário, num contínuo de comoção e raiva, as imagens das cargas policiais continuam, mais de 48 horas depois do visionamento inicial, a alvoroçar-me.
Quanto mais as vejo, mais me insurjo contra as descargas de fascismo que emanam de um governo democraticamente eleito e, no entanto, tão anti-democraticamente governado.
Arrepiada com tanto horror, paro nos gritos, e confirmo que a única proporcionalidade na actuação policial é a da sua cobardia em relação à sua violência. Confirmo também, a cada torrente de bastonadas e pancadaria indiscriminada, que às cargas de autoritarismo devemos responder sempre com recargas de mobilização e força popular.
É então que me lembro destas palavras do incontornável Martin Luther King: “Se ainda não encontraste uma causa tão cara e preciosa pela qual vale a pena morrer, não tens motivo para viver. Tu morres quando te recusas a defender o que é correcto… a verdade… a Justiça”.
Acrescento que, mais do que sermos algozes de nós próprios, quanto nos recusamos a defender o que é correcto...a verdade...a Justiça, assinamos uma sentença de morte colectiva.
É dela que nos vejo ressuscitar, na resistência das ruas e na resiliência das lutas.
Porque se hoje a crise na habitação está mais do que nunca na agenda, devemo-lo às destemidas acampadas que, depois de violentamente reprimidas, se transformaram em ‘monumentos’ à defesa do direito de todas as pessoas a um tecto.
Antes disso, convém lembrar, alterações torcionárias à lei do arrendamento quase passaram despercebidas, enquanto os holofotes mediáticos se deixaram ofuscar por nulidades futebolísticas.
Agora não dá mais porque, nas ruas, à imagem do exemplo de Maricarmen Abascal, há quem esteja a dar o corpo às balas pela habitação.

Enquanto isso, quem governa inventa narrativas para justificar a brutalidade policial e condenar a contestação popular que, importa sublinhar, ultrapassa largamente as fronteiras da especulação imobiliária nacional.
Ao mesmo tempo, quem governa desprotege os arrendatários, à medida que blinda o seu extenso património imobiliário de possíveis desvalorizações.
Não estranha, por isso, que nos digam que há desobediência, quando tudo o que vemos é militância cidadã, ou que insistam na teoria da ilegalidade das acampadas, quando o que vemos é a prática do direito ao protesto.
Também por isso, nada do que possam dizer tem sustentação se a realidade do que estamos a ver o desmente.
Porque enquanto o Governo entende que 785 euros por um T0 é um valor de renda acessível, num país em que o salário mínimo é de 920 euros, o número de pessoas em situação de pobreza persistente continua a aumentar.
Do mesmo modo, enquanto o primeiro-ministro vê “razões egoísticas” por detrás das manifestações pela habitação, dados recém-revelados pela Pordata, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, indicam que “Portugal foi o país da União Europeia onde os preços da habitação mais aumentaram entre 2020 e 2025, com uma subida de 41,5%”.
Nos antípodas da realidade, o ministro das Finanças, Miranda Sarmento, descarta novas medidas para resolver a crise na habitação, porque, explica, do lado do Governo, “foi praticamente tudo feito”.
Já não falta tudo, portanto. Mas é por esse “quase” que falta que ainda estamos aqui! E enquanto estivermos, haverá resistência e luta.

