Tinha 12 anos quando, depois de um soporífero ano de catequese, fui baptizada e fiz a minha primeira comunhão. Não por obra e graça de um qualquer assomo de fé na religião católica, mas por um assumido e adolescente arrebatamento romântico.
Foi nessa idade que, entre palpitações de um primeiro amor e suspiros de cenas de filmes e novelas, o sonho de uma grande festa de casamento começou a encaminhar os meus planos de vida para o altar. Como não fazia segredo dos meus instintos matrimoniais, rapidamente dei de caras com a primeira contrariedade: “Se te quiseres casar na igreja, precisas, no mínimo, de ser baptizada”.
Até aí nunca me tinha passado pela cabeça fazê-lo, e devo confessar que via com muitos bons olhos a opção dos meus pais: ambos católicos e casados pela igreja, optaram por não nos baptizar, para não nos imporem as suas escolhas religiosas.
Pelo mesmo motivo, dispensaram-nos da disciplina “Religião e Moral” que, embora facultativa, se tornava obrigatória para muitos alunos.
Hoje compreendo que essa liberdade, tanto na escola como na igreja, permitiu-me explorar a religião não como uma visita-guiada, mas antes como uma de muitas viagens de autoconhecimento espiritual.
Por isso, quando me perguntam se tenho religião, costumo responder que tenho fé. Desde logo, na Humanidade que, sendo capaz do pior também é capaz do melhor, e consegue sempre alentar-me com os seus actos de generosidade. Também tenho fé no Amor e nos “agentes invisíveis” que multiplicam a sua força reparadora, especialmente poderosa para derrotar medos e ódios. Tenho igualmente fé no que chamo de Divino – uma energia que transcende todos os templos e religiões, e que, ultrapassando as fronteiras do que conhecemos, nos disponibiliza saberes e fazeres, intuitivamente activados.

É verdade que há quem veja nessa mobilização de poderes desconhecidos uma resposta do nosso instinto de sobrevivência, mas eu vejo aí uma intervenção Divina – não atribuível a este ou aquele Deus, a esta ou aquela Deusa, mas resultante de um exercício de fé.
E é esta fé que tenho em todos nós, independentemente de credos e cultos, que me faz confiar em dias melhores. É com ela que me encontro nas palavras do Padre João Prego, entregues numa missa do último domingo, e por mim recebidas nos termos que apresento no título: entre estar na igreja e ser Igreja. A diferença é gritante, e mede-se por renovadas doses de hipocrisia.
Afinal, quantos políticos adoram desfilar e posar a sua crença católica para os jornais e televisões, mas são os primeiros a odiar o próximo, e a atacar os seus dessemelhantes?
Ao mesmo tempo, o que distingue verdadeiramente um católico? Pregar o facto de o ser e exibir essa confissão, mesmo que no quotidiano defenda que os direitos humanos não são universais, e sim alienáveis? Por exemplo em função da cor da pele, local de nascimento, identidade de género e orientação sexual?
A minha fé na Humanidade faz-me acreditar que é possível estar na igreja e ser Igreja, – entendida como expressão de bondade e solidariedade, e não como demonstração de vaidade e superioridade.
Mas não consigo dissociar o espaço sagrado do tipo de incoerência que encontro amiúde nas redes sociais: entre o que se mostra e o que se vive, esconde-se um enorme medo de rejeição, que anda de mãos dadas com uma gigante necessidade de validação e aprovação, a que se junta um monstruoso desejo de fuga da realidade.
Um pouco à semelhança daquele arrebatamento que, aos 12 anos, me mascarava múltiplos desafios de aceitação e integração com fantasias de altar.

