Os avisos vão soando acriticamente e, com eles, minam-se as responsabilidades. “Isso não vai dar em nada”, desencoraja-se de um lado, “Não vale a pena a chatice”, desincentiva-se do outro e, de silenciamento em omissão, renuncia-se à própria voz, resvalando-se para uma condição de falência cívica.
É dela que se alimenta o estado de impunidade a que chegámos, porque enquanto muitos de nós abdicam de direitos, resignados à ideia de que é uma perda de tempo protestar, outros continuam e continuarão a usurpá-los e a violá-los, convencidos de que podem bem arriscar uma pena, num mundo em que tantas vezes as injustiças têm como resposta um fatalista “é o que temos”, ou um cínico “temos pena”.
E se, em vez, de encolhermos os ombros diante dos abusos de poder que observamos, começarmos a erguer o punho da luta?
Talvez não tivéssemos tantos ‘pavões’ a desfilar impunidade, como o advogado que, em representação do meu senhorio, me acusa de ocupar ilegalmente o apartamento onde vivo há quatro anos.
Do mesmo modo, talvez se tornasse virtualmente impossível apresentar em tribunal ficções juridicamente sustentadas em artimanhas, como aquela que, não fosse o recurso que apresentei, continuaria a retratar-me como uma “ocupante ilegal”, ainda que não tenha uma única renda em atraso.

Por enquanto, porém, não só é possível inventar narrativas difamatórias sem apresentar documentação que a sustente, como também é possível mentir descaradamente em tribunal, a exemplo que pude comprovar na última quinta-feira, no Palácio da Justiça.
Ainda em modo de processamento de tudo o que vivi, atormenta-me a certeza de que, do outro lado, há todo um comboio de fraudes que já deveria ter descarrilhado com a apresentação dos comprovativos de pagamento das rendas.
Em vez disso, observo como o meu tecto é, para quem não vê a hora de o voltar a negociar a preços de carrasco, uma espécie de jogo de tabuleiro inconsequente. De tal forma que o advogado-pavão não se coibiu de insinuar que se está positivamente a marimbar para a minha vida, acrescentando que a empresa tem dezenas de outros apartamentos no mercado. Que é como quem diz, muitos outros inquilinos para engordar as contas.
E como se o registo superior-trocista não fosse adequadamente ultrajante, o pavão lá orquestrou com a testemunha da empresa um guião de aldrabices. Consigo provar duas, mas será suficiente para responsabilizar a mentirosa, que passou o testemunho inteiro a invocar lapsos?
Não sei, mas quero saber. Mais do que isso, recuso-me a ficar sem saber. Não apenas porque a minha natureza contestatária e reivindicativa assim o exige, mas também porque entendo que todas as pessoas são guardiães das instituições.
E como alguém que escreve reclamações, apresenta queixas, protesta nas ruas, subscreve petições, alinha em boicotes e o que mais for necessário, não posso permitir que a mentira vença, sem dar luta.
Aliás, importa sublinhar, se não tivesse contestado a sentença que me condenou, negando o meu direito à defesa, nem sequer teria ido a tribunal.
Aqui chegada, e a horas de conhecer a nova decisão judicial, entre toneladas de tensão e pressão, aliviadas com doses de profunda fé e confiança, custa-me pensar que ainda tenho de me preocupar com mentiras. Mas, reconheço, a alternativa de deixá-las passar custa-me muito mais.
Não passarão!

