Até que o voto nos separe?
De cedência em obediência, tornamo-nos peças indiferenciadas.
Nada de discutir política. Futebol tão-pouco. A religião também é para esquecer. Já agora, não convém falar de dinheiro. Tão-pouco sobre sexo.
Importa que convivamos entre amenas cavaqueiras, sem levantar ondas, nem chamuscar os brandos costumes.
É assim que, ano após ano, numa programação e actualização de códigos sociais, vamos automatizando recomendações de moderação, como quem segue as instruções de um manual de sobrevivência à convivência.
Sem nos darmos conta, e, nalguns casos, talvez até sem nos importarmos, aprendemos a reprimir opiniões, a amenizar convicções, a disfarçar desejos e a abdicar de paixões.
É a factura para “pertencer”, ouvimos de um lado. A vida em sociedade tem regras, escutamos do outro. Assim ordenados, resignamo-nos a engrossar linhas de produção humana, em que acabamos por descontinuar originalidades, vontades e potencialidades para encaixar numa “norma”, seja ela qual for.
De cedência em obediência, tornamo-nos peças indiferenciadas.
Como esperar, então, que sejamos capazes de valorizar a diferença, em vez de a descartarmos como se fosse uma “anomalia” ou “defeito de fabrico” que entrava o sistema?
Se nos educam para “caber” e não para “ser”, como encontrar espaço para nos percebermos e aceitarmos imperfeitamente humanos, expressar o que pensamos, sentimos e queremos?
Se tantas pessoas fogem de si próprias, e vivem disfarçadas de quem acham que têm de ser, não surpreende que sejam incapazes de aceitar que outros tenham a coragem de viver exactamente à imagem de quem são.
Pode ser o imigrante que deixa tudo para trás e começa de novo noutra parte do mundo; a pessoa trans que vive no andar de cima; a mulher que decide abortar; o casal de lésbicas que está no grupo de mães; a família negra que abriu um restaurante no bairro.
A cada exemplo, observa-se como o ódio à diferença, que se manifesta na construção do “outro” como ameaça, é, na realidade, uma expressão de auto-ódio projectada sobre quem não renunciou à sua verdade.
A que preço?
Numa sociedade em que “boas maneiras” se confundem com resignação e ausência de confrontação, a quem surpreendem as “revelações” eleitorais dos últimos anos?
Como esperar que sejamos capazes de debater ideias, argumentar, contra-argumentar e discutir propostas, quando passamos uma vida inteira a evitar conversas, iludindo-nos de que dessa forma protegemos relações e ambientes?
Se o atrito também é força e fonte de movimento, porque é que temos tanta dificuldade em lidar com ele, optando não raras vezes por eliminá-lo, contornando “temas fracturantes”?
Como alguém que acredita que as conversas por fazer voltam sempre como ruído, olho inquieta – muito inquieta – para o cerco fascizante que nos espreme, mas também o vejo como uma oportunidade de regeneração democrática.
Se estamos a deixar a democracia escapar-nos pelos dedos não tenhamos dúvidas: é, antes de mais, por nunca termos discutido, enquanto sociedade, de que desigualdades se constrói a História de Portugal.
Quantos dos que agora votam na anti-democracia, vociferaram ou cresceram a ouvir vociferar contra o processo de descolonização? Quanto do ódio do presente não é um legado do passado, enraizado em distorções de poder?
Demos nós as voltas aos ressentimentos que dermos, é incontornável observar que quem tem ficado para trás, ao abandono, entregue à sorte de desigualdades estruturais, sente que não tem nada a perder, e vota na anti-democracia.
Com isso, perdemos todos. Para que todos possamos ganhar, todos temos de jogar, de ser parte do tabuleiro político-democrático que parece estar esquecido entre gavetas constitucionais. Lembremo-nos dele, como guardiões da nossa memória que somos. Para que o voto nunca nos separe da democracia.




Que título tão bem escolhido e que texto excepcional! Se as famílias tivessem feito o seu trabalho de casa e tivessem falado e educado, não estaríamos assim, com tantos narcisistas loucos que só se vêem a si mesmo. A diferença nunca é aceite, a fragilidade é tanta que quebrariam só olhar para "o outro". E se se ressoassem, só por instantes? Estalariam como cristal, escuro, do mais puro e translúcido copo de vinho ❤️ Que as nossas vozes nunca se cansem nem se apaguem, nunca, nunca! E agora, nesta segunda volta, em que só existe 1 candidato! Coisa estranha e ridícula. A realidade é esta. Vamos para eleições e só temos 1 candidato Demcrático! Há eleições e só há 1 candidato democrático: António José Seguro! Pois não há outro nome acrescentar a quem não acrescenta e é só...tão e somente: ruído...
Beijinhos para Paula Cardoso e para Georgina Angélica! Equipa Maravilhosa❤️❤️