Ausências que ficam
"As diferenças sentem-se — com alguma nitidez — entre aqueles que cresceram com a presença do pai e aqueles que cresceram sem ela"
Tenho estado mais atenta ao que se diz, mas sobretudo ao que fica por dizer. Às conversas que parecem simples, mas que, quando escutadas com mais cuidado, revelam camadas profundas de experiência e de dor.
Recentemente, ouvi o criador de conteúdo, Dominick Donk, dizer que o Dia do Pai, em Cabo Verde, deveria ser vivido quase como um dia de luto. Fiquei a refletir sobre isso e sobre a forma como expôs uma realidade muitas vezes normalizada: a distância entre gerar e cuidar — entre existir biologicamente e estar emocionalmente presente. Desde então, tenho-me lembrado de muitas conversas com homens negros cabo-verdianos, embora saiba que não é uma realidade exclusiva desta identidade.
As diferenças sentem-se — com alguma nitidez — entre aqueles que cresceram com a presença do pai e aqueles que cresceram sem ela. Mas mesmo essa presença, em muitos casos, esteve centrada na sobrevivência. Pais que garantiram o essencial, que trabalharam para oferecer uma vida mais digna, mas que não tiveram espaço — ou ferramentas — para o vínculo emocional. E, querendo ou não, as marcas ficam.
Depois há os relatos de quem cresceu em casas monoparentais. Homens que falam das mães como figuras totais — cuidado, disciplina, proteção. São elas que celebram no Dia do Pai, porque ocuparam todos os lugares. E, mesmo assim, quando falam dos pais, há algo que permanece num lugar de dor.
Mesmo quando existe uma relação no presente, há uma dificuldade em transformá-la em reconciliação, e não por falta de vontade, mas porque é desafiador apagar as ausências com o tempo. São experiências que moldam a forma como se confia, como se cria proximidade, como se reconhece o outro.
Tenho pensado que há uma dor particular neste lugar: querer aproximar-se, mas não saber como atravessar aquilo que ficou por viver. Também tenho refletido sobre a palavra coerência, numa lógica de autoavaliação constante e de alinhamento com a “coluna vertebral” dos projetos em que estou envolvida.
Fui pesquisar a etimologia da palavra coerência e descobri que vem de cohaerentia: co- (junto) + haerere (aderir, estar ligado), ou seja, manter as partes unidas. E agora ligo também à reflexão que proponho com este texto: pergunto-me o que acontece quando essa ligação parental falha logo no início. Quando aquilo que deveria criar continuidade — presença, cuidado, vínculo — não se constrói.
Ao mesmo tempo, penso nestes homens, hoje adultos, a procurar viver de forma coerente com algo que nunca lhes foi plenamente dado. A construir presença onde houve ausência e a ligar partes que cresceram separadas. Penso que uma construção coerente passa por perceber que não existem respostas perfeitas, mas que o caminho é continuar. E, no percurso, ter ganhos de consciência que poderão ajudar a uma reconciliação — acima de tudo interna.
Falar de parentalidade monoparental em Cabo Verde é, inevitavelmente, reconhecer a força das mães. Mas talvez seja também o momento de escutar estes homens — não apenas na sua ausência enquanto pais, mas na sua história enquanto filhos. Homens que cresceram sem referências claras de presença emocional e que, ainda assim, procuram construir algo diferente — sem linguagem emocional e sem referências.
Será que o caminho pode começar por aí? Criar ligação onde ela não existiu? Aprender a estar, mesmo quando nunca se teve?


