“Can Feminism be African?”. “Pode o feminismo ser africano?”. A pergunta, bem visível entre capas de oferta literária, interpelou-me inesperadamente e, com ela, voltei à conversa que, semanas antes, nos ligou por WhatsApp.
Eu em Lisboa, tu em Maputo, partilhámos durante cerca de uma hora olhares sobre tradições que – compreendemos hoje – nos apressamos a rejeitar como universalmente machistas, quando, por vezes, estão apenas contaminadas por visões do mundo enviesadamente eurocêntricas.
Bem recalibradas as lentes, pode, afinal, o feminismo ser africano? A interrogação, originalmente colocada pela escritora Minna Salami, na obra “Can Feminism be African? A Most Paradoxical Question” (”Pode o Feminismo ser Africano? Uma Questão Paradoxal”), parecia mesmo feita à medida das nossas desarrumações geográficas, aqui espicaçadas por uma autora que vive numa intersecção de Nigéria com Finlândia e Suécia.
Incapaz de resistir ao título, trouxe-o comigo para que, no final das leituras, ficasse contigo. E ficou.
Conversa vai, conversa vem, juntaste a Paulina Chiziane à nossa mesa quando, em Julho, partilhaste um pedaço da sua intervenção no “Podcast para Elas”, lembrando-me o que andávamos a idear “sobre o feminismo intrínseco em África”.
Foi assim que, eu aqui e tu aí, de referência em consciência, fomos interrogando os nossos mapas de pensamento e imaginando universos alternativos. Os mais recentes incluem, além do questionamento de Minna Salami, o romance “A Family Affair” (”Assunto de Família”), da zimbabueana Sue Nyathi, que em boa hora me apresentaste no nosso último encontro.
Ficou comigo com o plano de nele me encontrar e reencontrar contigo. Por isso peço-lhe, enquanto escrevo, uma orientação para este novo capítulo da nossa história. Já agora, convém explicar: volta e meia converso com livros. Sem racionalizar, fecho os olhos, deixo que os meus dedos folheiem respostas, e preparo-me para ler a página onde as minhas mãos decidem parar.
É aí que vejo o romance devolver-me, em destaque, o título “A vision of Love” (”Uma visão de Amor”), e é então que reparo que a história termina na página 470.
Ocorre-me imediatamente uma leitura simbólica do número final: o teu corpo parou na 47.ª linha da vida.


Não sei em qual delas nos familiarizámos, mas guardo bem cada linha somada e partilhada, e, em jeito de memorial, até te enviei um vídeo de despedida.
Talvez já não o conseguisses ver, avisaram-me. Ainda assim quis gravar, confiante de que, por ressonâncias do universo, cada episódio recordado te pudesse confortar.
Lembras-te da minha primeira casa, na Ramada? Foi onde honrámos, em brinde, os nossos ancestrais, a caminho de uns dias no Algarve. Depois, em Santos, partilhámos a recuperação de uma bem dançada passagem de ano na Comuna. Pelo caminho, acolheste-me a mim e à Catarina na tua residência universitária em Londres. Seguiu-se o nosso primeiro encontro em Maputo, a tua visita a Lisboa como recém-mamã, e, no início do ano, um novo abraço no nosso Moçambique, desta vez prolongado por mais de uma semana.
Paro nestas “misteriosidades” da vida. Poderia ter ficado com o meu tio, como na viagem de 2024 em que nos desencontrámos, mas pensei em como seria bom passar uns dias contigo. Não demorei a escrever-te com esta ideia. Não te demoraste a abrir-me as portas da tua casa.
Aproveitámos cada momento para pôr a vida em dia, e até tivemos um luar a aconchegar-nos os planos. Mais do que actualizar as nossas memórias, a duas, criámos espaço para escrever novas, a três. Todas precocemente interrompidas.
Agora é no teu ponto final que me encontro, ainda à espera de sair do meu ponto de exclamação que é também de interrogação, mas, com a certeza de que me continuo a escrever contigo. À letra do que prega um dos meus provérbios africanos favoritos: “Os passos das pessoas que andam juntas nunca se apagam”.
Descansa em Paz, amiga. Até ao próximo capítulo!

