Chorar lágrimas, para não chorar balas
"Alertam-nos contra tudo. O tabaco, o álcool...mas não contra o maior perigo de todos, que deveria vir com uma advertência: O Amor mata!"
Ele e ela estão frente a frente, numa conversa que vai e vem, ao longo de quase 105 minutos. Ele, mais velho, assume o papel de narrador, enquanto ela, jovem adulta, acompanha cada descrição de olhar vidrado e curiosidade afiada.
A cena, sem maiores distracções, agarra-me às primeiras palavras. “Alertam-nos contra tudo. O tabaco, o álcool...”, introduz a voz masculina, firme na identificação daquele que explode como “o maior perigo de todos”.
Por isso mesmo, não hesita na prescrição preventiva: “Deveria vir com uma advertência escrita – O Amor mata!”. Num Portugal onde, entre 2002 e 2025, 709 mulheres foram assassinadas, e 939 vítimas de tentativa de homicídio, o aviso – extraído dos primeiros instantes do filme dinamarquês “Loving Adults” – soa tragicamente certeiro.
Mas, se “O Amor é o que o Amor faz”, nos termos do que eternizou bell hooks, quando, como e onde foi que o carregamos de morte? Se o Amor é, por definição, vibração de vida, desde quando é que se expressa Amor matando?
Não deveríamos antes reconhecer que Amar e Matar são “fazeres” que se anulam? Em que medida a cobertura mediática dos femicídios favoreceu a romantização de assassinos cruéis, e normalizou a violência de género, ao reportar, ao longo de décadas, “crimes de paixão”, em vez de denunciar a cultura patriarcal, machista e misógina que os inflama e protege?
Regresso à ficção de “Loving Adults” – que me agarra primeiro pela narração, e depois pela acção – e penso no retrato feminino ali traçado, ou, melhor escrevendo, devassado. Ficamos sempre mal na fotografia, oscilando entre a histeria, a frigidez, a agressividade, a leviandade, a personalidade calculista e manipuladora, e tantos outros “descontrolos” da alma que, a conclusão óbvia, é que somos nós que os levamos à loucura.
Repetem-nos, entre produções audiovisuais, que “qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência”, mas, nos ecrãs como na realidade da vida, encontro olhares de culpabilização das mulheres, sempre vítimas de si próprias. Enquanto isso, prevalece a ideia do homem como ser esvaziado de sentimentos e emoções, sempre muito objectivo e racional, incapaz de atacar a matar, a menos que tenha um bom motivo – ou um diagnóstico desviante.
É assim que elas morrem do próprio veneno, e eles matam porque foram envenenados de Amor. Volto às estatísticas recém-divulgadas pelo Observatório de Mulheres Assassinadas, para constatar que a maior parte dos femicídios é precedida de episódios de violência, sendo que, em 80% das vezes, as agressões são conhecidas por outras pessoas. “A maioria destes crimes ocorreu na residência partilhada entre vítimas e agressores”, sublinha a coordenadora do observatório, Cátia Pontedeira, em declarações citadas pelo Público.
No mesmo jornal, Liliana Rodrigues, presidente da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR) – onde o Observatório de Mulheres Assassinadas está integrado –, alerta para a “necessidade de se trabalhar com os agressores”. A recomendação, sustenta a responsável, ressalta dos dados: “Em quase metade dos casos de homicídio de mulheres, houve uma tentativa de suicídio por parte do agressor, com sete homens a perderem a vida”.
E, enquanto morremos, recordo as palavras do psicólogo William Pollack, autor de obras como Real Boys: Rescuing our sons from the myths of boyhood (Rapazes de verdade: resgatando os nossos filhos dos mitos sobre ser rapaz).
Cito-as muitas vezes de cor, pela relação inequívoca que estabelecem entre repressão de emoções e explosão da violência: “Se não deixarmos os nossos miúdos chorar lágrimas, eles vão acabar por chorar balas.”
Quem prefere a guerra ao Amor?


