Coleccionar contactos, esvaziar ligações
Quão insana é esta realidade de circularmos por redes cada vez mais alargadas de "amigos", enquanto vivemos quotidianos cada vez mais fechados sobre nós próprios?
Depois de um “Olá”, acompanhado de uma mãozinha ‘emojizada’ a acenar, seguem-se três perguntas: “Tudo bem? Viu o meu perfil? Mora em Moçambique????”. Entre o início e o fim do interrogatório, ordena o pedido: “Veja as minhas publicações! Quando vir e se gostar ponha um emoji...”.
Na madrugada seguinte, decorridas cerca de cinco horas desde a primeira mensagem, envia-me um “Gosto” e, no mesmo dia, lança mais uma questão: “Não diz nada?”.
À falta de uma resposta, e com os ponteiros do relógio a avançar, insiste: “Somos ‘Amigos’ no Facebook...para quê?? Você não diz nada...”.
Para dar imagem à sua desilusão, encerra a mensagem com um par de emojis faciais: o primeiro tem um fecho no lugar da boca, o outro apresenta um nariz de Pinóquio.
Como a foto de perfil sugere uma idade suficientemente adulta para que possa não perceber a dinâmica das redes sociais, dou-me ao cuidado de explicar.
“Bom dia, Caro J., nas redes sociais tenho milhares de ligações. Não há como comunicar com todas as pessoas. Abraço e bom fim-de-semana”.
Sem demora, retorquiu: “Compreendo, e talvez seja esse um motivo para ganhar dinheiro. Eu removi a Amizade. Boa sorte.”
Convém sublinhar que entre a primeira e a última mensagem passaram apenas cinco dias, tempo em que, aparentemente, violei de tal forma o grande código das interacções virtuais que só poderia mesmo ser condenada à perda de uma “amizade”. Não solicitada, acrescente-se.

Junto o episódio a uma série de abordagens que se ficam por um “Oi” ou um “Olá” – assim, sem mais – como se estivéssemos numa conversa em tempo real.
Não estamos e, a avaliar pelas expectativas bem ‘botizadas’ que encontro entre caixas de mensagens, desconfio que não faria grande diferença se estivéssemos.
Confirmo as minhas suspeitas enquanto entabulo conversa com desconhecidos, entre ziguezagueares no Campo Mártires da Pátria. Faço-o não por diversão, mas por estar à espera de um grupo de formandos, à porta de um espaço de localização não-automática.
“Bom dia, vem para a formação?”. Disparo a pergunta a cada passagem humana que me pareça deslocada, e noto, nas respostas, variadas reacções de desconforto.
Arrisco reduzir todas as expressões a um único pensamento: “Que estranho, uma humana que não conheço de parte alguma está a comunicar comigo! Não deve estar boa da cabeça!”.
Penso imediatamente nas nossas inúmeras contradições. Quão insana é esta realidade de circularmos por redes cada vez mais alargadas de “amigos”, enquanto vivemos quotidianos cada vez mais fechados sobre nós próprios?
Ainda nos lembramos dos primórdios de tudo isto? Havia quem optasse por manter o perfil reservado a família e amigos. Outros preferiam estendê-lo também a conhecidos, e não faltava quem se recusasse a deixar entrar colegas de trabalho. Depois, naquela que hoje vejo como a era dos embriões de “influencer”, passou a vigorar uma espécie de “lei da quantidade”, em que coleccionar contactos se tornou um fim em si mesmo. Tão esvaziado de ligações humanas que confundimos presença com cobrança.

