Há dias, numa conversa com uma jovem de 22 anos, falávamos sobre relações.
Perguntei-lhe o que fazia com que a relação que tinha funcionasse tão bem. Contou-me que estavam juntos há algum tempo, que raramente discutiam e que não tinham grandes desavenças. Despertou a minha curiosidade e lá começaram as perguntas.
— E qual é o segredo?
A resposta surpreendeu-me.
— Nós não nos deixamos levar por aquilo que todas as pessoas da nossa idade fazem quando estão numa relação. Quis saber mais.
Foi então que me explicou que não partilhavam a localização um do outro e não tinham acesso às câmaras da casa um do outro. Aliás, não sentiam necessidade de saber permanentemente onde estava o outro, com quem estava ou o que estava a fazer.
E acrescentou:
— Na minha geração, toda a gente tem a localização uns dos outros.
Confesso que, depois do choque inicial, tentei perceber.
Como assim, esta é agora a norma?
E veio a justificação:
— Dizem que é para garantir a segurança um do outro.
E continuei a perguntar.
Mas não confiam um no outro?
Qual é a razão de estarmos numa relação se precisamos de saber permanentemente onde está a outra pessoa?
A determinada altura, refleti se as perguntas que estava a colocar não pareceriam demasiado ingénuas para quem cresceu neste contexto.
Será que confundimos acesso com intimidade?
Hoje podemos saber onde alguém está, com quem está, quando chegou a casa e até, em alguns casos, ver o espaço onde essa pessoa se encontra, podemos ter acesso a quase tudo.
Mas será que conhecemos melhor quem amamos através da sua localização?
Porque saber onde alguém está não significa saber o que essa pessoa sente. Ter acesso ao telemóvel não significa ter acesso ao seu mundo interior, e conhecer a localização não significa conhecer o caminho que aquela pessoa está a fazer dentro de si.
Sem perceber, será que se está a transformar algumas relações num território onde vigilância passou a ser sinónimo de cuidado e controlo passou a ser confundido com segurança.
Outra questão inquieta-me: quando é que uma escolha deixa de ser escolha e passa a ser uma exigência?
Quando é que começamos a partilhar porque temos medo do que poderá acontecer se não o fizermos?
E, sobretudo, quando é que começamos a acreditar que amar alguém significa ter acesso permanente à sua vida?
Ao longo destes anos de vida, aprendi algumas coisas.
A primeira é que ninguém controla ninguém e ninguém deveria ter esse direito.
Cada pessoa faz as suas escolhas — em consciência ou não — e continua a ter direito à sua individualidade, ao seu espaço, aos seus erros, às suas decisões e à sua própria vida.
Estar numa relação não deveria significar deixar de ser quem somos para cabermos naquilo que o outro precisa. Mas também aprendi que isto não significa ignorar as necessidades de quem está connosco. Muito pelo contrário, uma relação exige muita comunicação, acordos, limites e responsabilidade afetiva.
Porque amar alguém é também aceitar que não conseguimos controlar tudo e temos sempre ao nosso alcance escolher ficar ou partir.
Outra coisa que é muito evidente para mim: estar numa relação é um dos maiores desafios que podemos enfrentar ao longo da vida. Porque uma relação revela-nos, mostra-nos os nossos medos, as nossas inseguranças, as nossas expectativas e as nossas feridas.
Mostra-nos aquilo que queremos receber e aquilo que ainda não aprendemos a dar. Querendo ou não querendo, obriga-nos a negociar proximidade, espaço, liberdade, compromisso, individualidade e pertença.
E obriga-nos a aprender uma coisa difícil: amar alguém sem querer moldá-lo à nossa medida.
Ao longo destes anos, também percebi que estar em relação é aprender a encontrar alguma paz no meio do caos e dos cacos. Os conflitos fazem parte, são uma forma de ajuste e crescimento, desde que não prolonguem por muito tempo, para não ganharem uma dimensão que depois seja difícil de reparar.
Volto àquela jovem de 22 anos e à sua resposta: “Nós não nos deixamos levar pelo que todas as pessoas da nossa idade fazem.” Acho que é nesse ponto que está o desafio: termos coragem para construir as nossas relações à nossa maneira, sem transformar o amor em controlo e sem deixar de ser quem somos para caber na vida do outro.


