Dá-me um caco do teu amor
"Já não se parte de um ideal de inteireza, mas de percursos feitos, de experiências acumuladas, de marcas que não desaparecem apenas porque se deseja."
O renascimento raramente é confortável. Traz consigo uma exigência e uma clareza que, por vezes, já não permite ignorar aquilo que antes passava despercebido. É nesse lugar que me encontro — e tornou-se inevitável revisitar formas de amar, de comunicar e de me relacionar, reconhecendo padrões que não surgem por acaso, mas que foram sendo construídos ao longo do tempo.
É difícil não reparar num traço recorrente nas mulheres da minha família: uma forma de amar profundamente generosa, expressa no cuidado, na presença e na atenção ao outro. Um amor que se revela nos gestos, nos detalhes e na disponibilidade constante. Ainda assim, por trás dessa capacidade de dar, há frequentemente algo mais discreto — uma dificuldade em receber, em reconhecer o próprio valor e em sustentar relações onde o amor não flui apenas num sentido, mas se move, nutrindo ambos os lados.
E percebi algo — afinal, este padrão não está presente só nessas mulheres. Com algum desconforto, reconheço que também se revela em mim. E o que antes parecia distante torna-se impossível de ignorar.
Não tem sido um processo leve. A exigência é real — reconhecer o que se repete, o que se evita e o que se escolhe, consciente ou inconscientemente. Estou numa fase em que a vida deixou pouco espaço para adiamentos - impõe decisões e obriga a escolher como viver, como amar e como estar em relação.
Recomeçar, sobretudo no campo amoroso, talvez seja um dos exercícios mais desafiantes. Já não se parte de um ideal de inteireza, mas de percursos feitos, de experiências acumuladas, de marcas que não desaparecem apenas porque se deseja. E, ainda assim, há algo de profundamente belo neste encontro entre histórias imperfeitas.
E, por isso, faz-me cada vez mais sentido pensar o amor fora da lógica da perfeição. Um amor possível, que reconhece a fragmentação, que acolhe as falhas e que não exige versões idealizadas - que se constrói na presença, na decisão e não na ilusão de completude.
E, nesse mesmo universo, o poema “Quase”, de Tatiana Nascimento (enviado pela pessoa que me está a colocar nesse lugar belo), reforça que talvez não seja preciso tudo — talvez um pedaço, um caco de amor, seja suficiente para começar.
A escolha entre permanecer só ou construir com o outro ganha, aqui, uma nova densidade. Não se trata apenas de conforto ou de ausência de conflito, mas de disponibilidade para o encontro — com tudo o que ele traz.
É aí que reside o seu potencial transformador - na possibilidade de ser visto e aceite na totalidade. Não apesar das fragilidades, mas com elas. Um amor que não exige inteireza, mas verdade — mesmo quando tudo o que temos para oferecer são cacos.


