De par em par - quem tem de acontecer?
Somos capazes de assumir o lugar de realizadores das nossas histórias?
A Terra é povoada por mais de 8 mil milhões de pessoas, dentro de cada uma habitam vários mundos e, calculam os ‘matemáticos’ das relações, ao longo da vida, mais interacção menos conexão, somos capazes de acomodar cerca de 50 bons amigos, 15 amigos próximos, e 5 amigos intímos.
Neste corrupio de idas e vindas, entradas e saídas, o que faz com que esbarremos em A e não em B? Como explicar aproximações e afastamentos? Que cola é essa que une para a vida, e aquela que o tempo descola?
Há quem acredite em magnetismos de atracção ou repulsa, em função da energia que emanamos a cada momento. Não falta quem confie em encontros predestinados, ao estilo de um argumento novelesco ou cinematográfico. E já me tenho deparado com teorias sobre “contratos de alma”, celebrados em dimensões que extravasam a vida terrena - os nossos santos cruzam-se ou não se cruzam?
Por detrás de cada proposta, sobressai a necessidade de explicar ligações tão significativas que parece improvável que sejam aleatórias.
“Tínhamos de acontecer”, escrevi em tempos, entre trocas de mensagens com alguém que, mais do que fazer parte da minha vida, faz parte de mim. Não no sentido de me completar, porque assumo como integralmente minha a responsabilidade de me construir e conservar inteira, mas na medida em que não consigo contar a minha história sem os capítulos que escrevemos juntos.
Exclusivamente a dois, mas este texto não é exclusivamente sobre ele nem sobre nós.
Aliás, abro aqui um parêntesis para assinalar uma sensação que fui reforçando entre conversas: muitas vezes os flirts e romances são partilhados como medida de importância de vida, e indicador de desejabilidade pessoal, enquadrados em estratégias para obter validação externa.
Como alguém que sempre foi reservada em relação à privacidade, que mantenho preservada no meu círculo mais íntimo, nunca fui do tipo de pessoa de perguntar a outras pessoas - por mais próximas que sejamos - sobre amores e desamores.
Não por desinteresse, antes para deixar a cada um e cada uma o espaço para partilhar a vida na medida da sua disponibilidade, no seu tempo, não no meu.
Por isso, da mesma forma que não cobro novidades sobre relações amorosas, não me sinto devedora de novidades.
Vivo-as a dois, e talvez venha daí a certeza sobre os protagonismos da vida, num quotidiano povoado de figurantes e personagens secundários, onde se calhar as cenas mais desafiantes de resolver sejam não tanto aquelas que envolvem desenvolvimentos inesperados de relações, mas antes as que implicam trocas de papéis.
Afinal, que cortes na acção dos nossos dias decorrem, ou podem decorrer, da saída de cena de uma personagem principal que se tornou secundária, e até mesmo figurativa?
Somos capazes de assumir o lugar de realizadores das nossas histórias? Ou ficamos simplesmente à espera das cenas dos próximos capítulos?
Quanto mais avanço no meu caminho, mais me convenço da não-aleatoriedade dos encontros, e também dos desencontros, e da arte e sorte envolvidas na permanência impermanente das amizades.
É com elas que escrevo o capítulo da minha mais recente viagem à casa-raiz Moçambique.
É também com elas que reflicto sobre uma das ‘colas’ que nos ligam: a entrega e sustentação na presença, a não-cobrança nas ausências.
Voltarei a elas, daqui a umas letras.


