Declaração de amor (e de desconforto)
"Quando apenas um tipo de corpo ou traço é elevado como representativo, não estamos perante uma mera escolha estética, mas sim perante uma hierarquia simbólica."
Parece que, de tempos a tempos, existe a necessidade de regressar a reflexões que, do meu ponto de vista, já deveriam estar mais do que amadurecidas. Essa é, talvez, a natureza das questões estruturais: não desaparecem com o tempo; transformam-se e exigem de nós novas formas de as compreender.
Como alguém que tem sangue cabo-verdiano — da ilha de Santo Antão — é impossível não sentir orgulho pelo que a seleção cabo-verdiana já alcançou neste Mundial de Futebol. O que aqui se manifesta não é apenas visibilidade desportiva, é a afirmação simbólica de um país que, apesar da sua dimensão, continua a provar que dignidade, disciplina, trabalho coletivo e humildade podem construir presença no mundo.
Este orgulho é real e importa nomeá-lo.
Mas é precisamente dentro desse orgulho que surge o desconforto.
Com o aumento da visibilidade de Cabo Verde, também se intensificam narrativas que reduzem e simplificam. Durante este período, voltou a emergir a exotização da mulher cabo-verdiana. Como escreveu Wilds Gomes, num artigo publicado na Bantumen — que recomendo a leitura —, a mulher cabo-verdiana continua frequentemente a ser representada através de um único padrão de beleza, mais próximo de certos fenótipos do que de outros.
No entanto, a mulher cabo-verdiana nunca foi uma só.
Existe em múltiplos tons de pele, formas, cabelos, corpos e histórias. Existe na pluralidade que sempre definiu a própria formação de Cabo Verde.
(Photo by Christian Agbede on Unsplash)
Quando apenas um tipo de corpo ou traço é elevado como representativo, não estamos perante uma mera escolha estética, mas sim perante uma hierarquia simbólica. E é aqui que o colorismo se mantém ativo: não apenas no que é dito, mas no que é repetidamente celebrado.
Nas memórias das festas da minha família, essa diversidade sempre foi evidente. Ainda assim, lembro-me da surpresa recorrente de alguns amigos ao verem essa pluralidade de fenótipos reunidos. A pergunta surgia quase sempre: “Mas vocês são mesmo todos da mesma família?”
Mas essa pergunta revela a dificuldade em reconhecer a diversidade dentro de uma mesma identidade.
Cabo Verde é, desde a sua origem, um território de encontros, cruzamentos e deslocações. A sua identidade nunca foi homogénea. Como nos recorda Amílcar Cabral, a cultura é simultaneamente fruto da história de um povo e um fator determinante da sua própria história. A forma como representamos Cabo Verde — e, neste caso, as mulheres cabo-verdianas — nunca é neutra. Também ela participa na construção da identidade coletiva e na definição de quem é visto, valorizado e reconhecido. É por isso que o colorismo é tão perigoso: porque converte a diversidade fenotípica em hierarquias de valor, profundamente enraizadas em legados coloniais.
Este desconforto leva-me a outra reflexão.
Espero que toda esta visibilidade internacional não se esgote no espetáculo do momento. Espero que se traduza em algo mais estrutural: em oportunidades, em investimento e em condições de vida mais justas para quem permanece no arquipélago.
Porque a história recente de Cabo Verde é também a história da sua diáspora. De pessoas que partiram não por escolha simples, mas por necessidade. Que procuraram fora aquilo que não encontravam dentro. E que, muitas vezes, construíram vidas entre a esperança de regressar e a dificuldade de pertencer plenamente.
Celebrar Cabo Verde sem olhar para estas camadas seria uma forma incompleta de amor.
Este momento obriga-me a reconhecer que é possível amar um país e, ao mesmo tempo, sentir desconforto com as formas como ele é visto, representado e vivido.
Na obra de Ta-Nehisi Coates encontramos uma ideia particularmente relevante para esta reflexão: o corpo negro nunca é percebido como neutro, mas como um corpo permanentemente atravessado por significados históricos, políticos e sociais. É precisamente por isso que a forma como olhamos e representamos também importa, porque nunca é apenas uma questão de estética; é também uma questão de poder, de memória e de justiça.
Esta é, por isso, uma declaração de amor a Cabo Verde — um amor que recusa romantizar, porque acredita que só olhando de frente para as nossas contradições podemos honrar verdadeiramente a riqueza da nossa história, da nossa diversidade e do nosso futuro.


