“Nunca tive uma professora mulata.”
Foi uma das primeiras coisas que ouvi no meu regresso ao chão da sala de aula. A frase veio de uma aluna do 9.º ano, de forma espontânea, quase como quem partilha uma curiosidade ou faz uma constatação que lhe ocorreu naquele instante. Não houve qualquer solenidade no momento, mas confesso que hesitei sobre o que fazer com ela. Uma parte de mim pensou que talvez devesse aproveitar a oportunidade para falar sobre a palavra “mulata”, sobre a sua origem, a sua história e tudo o que pode carregar. Podia questionar o termo, problematizá-lo ou simplesmente explicar por que razão hoje prefiro usar a palavra negra. Mas estávamos no primeiro dia de aulas e eu ainda não conhecia aquela aluna, nem a turma, e eles também ainda não me conheciam. Por isso, em vez de transformar imediatamente aquele comentário num momento pedagógico, decidi escutar.
Quando regressamos à sala de aula, sobretudo depois de algum tempo afastados dela, há uma certa urgência em apresentar, explicar, organizar, estabelecer regras, cumprir a planificação. Felizmente, a forma como entendo a minha presença numa escola vai muito além dos conteúdos. Tenho consciência de que a minha presença, por si só, pode levantar questões. O que aquela aluna verbalizou, outros alunos poderão ter pensado sem o dizer. A turma é diversa, o que me dá muito espaço para trabalhar questões que considero fundamentais para futuros interventores sociais que irão trabalhar com crianças, famílias e comunidades.
(Imagem gerada por IA)
Voltando à frase do início deste texto, aquela aluna estava a dizer-me que, em nove anos de escolaridade, nunca tinha tido uma professora negra.
Não sei se me disse aquilo por surpresa, curiosidade, identificação ou simplesmente porque reparou numa diferença e decidiu verbalizá-la. Talvez nem ela soubesse ainda explicar por que razão sentiu necessidade de me dizer aquilo. E está tudo bem. Nem tudo o que acontece numa sala de aula precisa de ser imediatamente interpretado, explicado ou convertido numa aprendizagem formal.
Reflito muitas vezes sobre a importância destes dados informais que os alunos nos oferecem. São informações que não aparecem nas pautas, não constam dos relatórios e raramente são recolhidas nos instrumentos de diagnóstico. Surgem nas conversas antes da aula, num comentário inesperado, na reação a uma imagem, numa pergunta aparentemente deslocada ou naquilo que um aluno decide partilhar connosco sem que tenhamos perguntado.
Se estivermos atentos, estes pequenos momentos ajudam-nos a conhecer os alunos, mas também nos dizem muito sobre a escola que eles têm vivido.
Curiosamente, esta reflexão encontrou eco numa conversa recente n’O Tal Podcast com o professor Didier Ferreira e o seu antigo aluno Diogo Rodrigues. Ao ouvi-los falar sobre uma relação pedagógica construída a partir da escuta, do conhecimento do aluno e da capacidade de reconhecer aquilo que nem sempre é imediatamente visível, voltei a pensar que uma parte importante do trabalho de quem educa comece na consciência que para ensinar, precisamos de estar disponíveis para conhecer quem temos à nossa frente.
A frase levou-me a pensar na representatividade de uma forma muito concreta. Quem são os adultos que os nossos alunos(as) encontram ao longo do seu percurso escolar? Quem ensina, quem lidera e quem ocupa lugares de conhecimento e autoridade? Que pessoas encontram nos manuais, nos exemplos que usamos nas aulas e nas referências que lhes apresentamos? E, mais importante, quem raramente encontram nesses lugares?
As crianças e os jovens constroem a sua ideia do mundo não apenas através daquilo que lhes dizemos, mas também através daquilo que veem repetidamente. Se determinadas pessoas aparecem associadas ao conhecimento, à liderança, à ciência, à literatura ou ao poder e outras permanecem ausentes desses lugares, essa ausência também comunica. Não é preciso que alguém diga explicitamente “este lugar não é para ti” para que, ao longo do tempo, se vá construindo uma ideia sobre quem pertence a determinados espaços e quem parece ser uma exceção quando finalmente chega até eles.
É também por isso que esta reflexão não pode pertencer apenas aos professores negros. Pelo contrário, interessa-me particularmente que seja uma conversa de todos nós, incluindo os meus colegas não negros. Não como um exercício de culpa, nem porque acredito que um professor tenha de partilhar a identidade racial de um aluno para conseguir ensiná-lo, mas porque aquilo que apresentamos como referência dentro da sala de aula é uma escolha pedagógica.
Podemos interrogar-nos sobre os autores que levamos para as aulas, as imagens que escolhemos, as histórias que contamos e as expectativas que construímos sobre os nossos alunos. Podemos também perguntar por que razão tantas vezes as pessoas negras entram no currículo sobretudo quando o tema é racismo, escravatura, colonialismo, pobreza ou exclusão, e muito menos quando falamos de conhecimento, criação, inovação, ciência, pensamento ou liderança.
A representatividade, para mim, começa assim: na possibilidade de uma criança crescer rodeada de referências suficientemente diversas para não associar determinados lugares, profissões, capacidades ou futuros a um único tipo de pessoa.
Naquele primeiro dia não expliquei nada disto à minha aluna. Limitei-me a guardar a frase e a informação que ela me ofereceu. Haverá outros momentos para conversarmos sobre linguagem, identidade e sobre a própria palavra que escolheu para me descrever.
Nesse dia, pareceu-me mais importante não ter pressa em mostrar o que eu sabia e estar disponível para perceber o que aquela turma me estava a começar a dizer.
Regressei ao chão da sala de aula com a expectativa de voltar a ensinar e, logo nos primeiros dias, fui lembrada de uma coisa que, por vezes, esquecemos: uma parte importante da prática educativa começa muito antes daquilo que planeámos ensinar. Começa na capacidade de observar, de escutar e de reconhecer significado naquilo que os alunos nos vão oferecendo.
Fiquei com uma certeza: antes de começar a ensinar qualquer conteúdo, a minha presença já tinha dito alguma coisa.


