Efeitos especiais: coincidência, ou consequência?
"Acho que se está a desperdiçar", atirou, abrindo espaço para uma conversa aspiracional, em termos que até aí nunca me tinham sido apresentados.
Tinha a esperança de encontrar uma lista de propostas que, em tempos, me dei ao trabalho de preparar, à medida de um projecto editorial independente. Por isso, vasculhei obstinadamente o meu arquivo de e-mails, e pus-me a fazer contas. Calculei a época em questão pelo jornal em que trabalhava, cruzei memórias com a pesquisa de notícias, mas, ao fim de uns quantos abrires e fechares de janelas, em vez de respostas, deparei-me com um mistério.
“Felicito-a por mais uma bela reportagem sobre o Solar dos Malafaias. Com efeito, ao ver a foto e ler a peça, fez-me voltar ao meu tempo de menino. Não sei se a Senhora é natural do Concelho de São Pedro do Sul, ou se no exercício do seu trabalho visitou aquela zona e ficou sensibilizada com o que viu”.
A mensagem é de 2011, vem assinada por L.A., e termina com uma referência que não consigo descodificar. “Tenho informação da minha filha em como a Senhora já fez o favor de encaminhar o seu CV”.
As palavras sugerem a existência de um histórico de comunicação, que, ao ter desaparecido completamente do meu álbum de recordações, me fez pensar no impacto que, sem nos apercebermos, podemos causar na vida das pessoas com quem nos cruzamos. Para o bem e para mal.
Quis o destino que hoje, já depois de uns dias a reflectir sobre esse e-mail, a semana tivesse começado com mais uma demonstração dos ‘efeitos especiais’ que temos o poder de co-criar.
À margem de uma conversa com a cantora e compositora Vanessa Spencer, que, em breve, poderão acompanhar no Rumos, veio à baila um pedido que lhe dirigi em 2020: criar uma música para a Força Africana.
Sei que sou suspeita na recomendação, mas vale a pena escutá-la aqui, agora com uma nota adicional. Contou-me a Vanessa, a quem costumo chamar “Deusa Melodia”, que foi a partir dessa generosa doação que a música começou a ganhar espaço na sua história.
Resumidamente, os planos iniciais da composição envolviam ritmos rap e hip-hop, abandonados por questões de agenda do artista com quem ela iria alinhar rimas. Apesar do desencontro de partida, a parceria concretizou-se pouco depois, com a Vanessa a emprestar a voz a um projecto de rap.
Daí em diante, foi sempre a cantar.

Será coincidência, ou a consequência de se ter disponibilizado e empenhado em se doar?
Pode o gesto de nos entreajudarmos gerar um efeito de contágio tão expressivo a ponto de multiplicar oportunidades e regenerar a nossa Humanidade?
Confio que sim, e procuro contribuir o mais que consigo para essa rede de apoio, por ser dela uma grande beneficiária. Em actos e palavras.
Não é por acaso que guardo até hoje a conversa com alguém que, no contexto de uma entrevista de emprego, me viu muito para além do que eu estava capaz de reconhecer.
Lembro-me que tinha acabado de me licenciar, estava a concorrer a um lugar administrativo numa empresa de venda de equipamentos escolares, e que, já calejada por um par de outras experiências, apresentei-me como alguém com formação secundária.
Na cabeça levava este zumbido: “Sabe, as pessoas com canudo entram sempre muito entusiasmadas, mas depois querem sempre algo melhor, e saem. Queremos alguém que esteja connosco para ficar”.
Convenci-me que seria simples contornar a questão do diploma, mas nessa entrevista em que fui vista – e, por isso, mantenho bem fresca na memória do corpo e da alma – o entrevistador, e dono da empresa, decidiu puxar pelas minhas habilitações. “Acho que se está a desperdiçar”, atirou, abrindo espaço para uma conversa aspiracional, em termos que até aí nunca me tinham sido apresentados.
Sem grande escapatória, e comovida pelo colo que estava a receber daquele perfeito desconhecido, acabei por confessar, envergonhada, a minha estratégia de empregabilidade.
Recebi de volta um sorriso, rematado por um vigoroso “Vi logo”, antes de ser confrontada com uma escolha: queria mesmo tentar a minha sorte por ali, ou não estaria apenas a diminuir-me nas minhas possibilidades? Consciente ou inconscientemente, saí daquela sala maior do que entrei, mas desconfio que o meu acelerador de crescimento possa ter desta história a mesma lembrança que eu tenho daquele e-mail. E isso não deixa de ser especial.

