Eu, um jogador da bola e um elevador
Desconfio que nunca o consegui encarar olhos nos olhos e, tal era a minha vergonha e embaraço, que não ousei circular pela tribuna no intervalo. Afinal, quem poderia eu ser que não acompanhante dele?
No ponto de encontro de todas as combinações que por ali aconteciam, eu, o P. e a namorada, esperávamos pelo H., retido em mais um turno que se estendeu para além do horário.
Tenho zero memória de como nos alinhámos para aquela saída, mas sei bem que estávamos ‘aos pés’ da estátua do Eusébio quando, na distracção da conversa e confusão da turba, dei por mim com um envelope nas mãos.
Lá dentro, um apetecível convite para a tribuna presidencial intrigava-me, ao mesmo tempo que espicaçava a minha curiosidade.
Comecei por desconsiderar, depois ponderei uma plausível embora improvável proveniência familiar da proposta, e, por fim, decidi desfrutar da mordomia.
Diz-me o Google, a quem recorro para recuperar a data desta história – vivida em torno de um Benfica 3, Sporting 0 –, que tudo aconteceu há quase 26 anos! Tão longínquos que à frente da equipa da Luz estava um ainda imberbe, porém já disruptivo, José Mourinho.
Para quem não conhece a novela da primeira viagem benfiquista do “special one”, deixo aqui um bom resumo, porque esta história não é sobre o futebol jogado, e sim sobre o futebol vivido. Por mim, a 3 de Dezembro do ano 2000.
Na altura tinha 21 anos, desconhecia que estava prestes a embarcar numa das noites mais desconfortáveis da minha história e, seguramente por isso, encontrei a firmeza necessária – nos meus passos e naquele envelope – para avançar.
Atravessei a segurança, entrei no elevador e, assim que saí, sem que a sensação de inadequação alguma vez me tivesse abandonado, um tipo alto e sorridente, que nunca tinha visto na vida, veio ter comigo.

Eu, que já estava bastante nervosa, fiquei tremendamente tensa ao perceber-me acompanhante de um homem que, não aparentando idade nem semelhanças para ser meu pai, também não dava ares de ser meu namorado.
Ao meu desconforto, ele respondeu sempre com gentileza e simpatia: apresentou-se, encaminhou-me para os nossos lugares, e explicou-me que estava ali ao serviço do Inter de Milão, para observar o Miguel Veloso, na altura jogador do Sporting.
Desconfio que nunca o consegui encarar olhos nos olhos e, tal era a minha vergonha e embaraço, que não ousei circular pela tribuna no intervalo. Confesso, aliás, que nem sequer sabia que poderia comer e beber sem me preocupar com a factura. Por isso, deixei-me ficar ali sentada, refém dos filmes que fui fazendo na minha cabeça sobre os filmes que as pessoas estavam a fazer sobre nós.
Afinal, quem raio poderia eu ser que não acompanhante dele?
Mortificada, mergulhei nas clássicas inseguranças e culpas de género, e pus-me a questionar o casaco de pele comprido que vestia, tormento que ia tentando mitigar com o que via como fortes atenuantes: ausência de maquilhagem, de saltos altos e de outros ‘marcadores’ que associava à indústria das ‘garotas de programa’.
Foi então que, ainda a segunda parte do jogo ia a meio, e enquanto me tentava libertar de 1001 condicionantes de condenação feminina, ele começou a levantar-se para ir embora. Explicou-me que com o Benfica a dominar era inútil esperar que o futebol do Miguel Veloso despontasse.
Ao mesmo tempo, sem me dar espaço para respirar, entregou-me um papel com um número de telefone, e a indicação de que nos poderíamos encontrar mais tarde, no hotel onde estava hospedado.
Em nenhum momento foi indelicado, nem tentou qualquer contacto físico, mas tudo ali à volta instigava em mim uma enorme vontade de fugir. Ainda assim, e nem sei bem como, aguentei até ao apito final e, já de saída, no elevador, aliviada com o quase impulso da descida, vejo um bem conhecido jogador de futebol, ex-Estrela da Amadora e ex-Sport Lisboa e Benfica, avançar uns escassos milímetros, até se deparar comigo.
Como quem reage por instinto, ele travou o passo, recuou e, em menos de nada, vi-o desaparecer do outro lado da porta. Do meu lado, deixou a validação, num único gesto, do meu próprio julgamento.

