Fundo Popular de 10 milhões de euros mensais
Acredito que a mudança, num mundo governado sob a falsa promessa da distribuição da riqueza, passa pelo nosso poder de multiplicarmos presenças. Uns para os outros.
Nunca vivemos tanto, em anos, nem tão confortavelmente, em condições materiais. Temos mais fontes de conhecimento, e um maior acesso à informação. Multiplicamos bandeiras no nosso mapa de viagens, adoramos dançar ao ritmo de “músicas do mundo” (não são todas?), e lambuzamo-nos com experiências gastronómicas de outras geografias. Ligamo-nos por redes que diluem distâncias geográficas, e iludem proximidades afectivas.
Bem sei que esta é uma imagem cor-de-rosa daquilo que se convencionou chamar progresso, que ela não retrata todo o globo e que nem sequer se aplica a todas as pessoas de uma mesma parte do mundo, mas, ainda assim, deste lado de tantas fronteiras, está estatisticamente comprovado que muitos de nós avançaram em relação a tantos outros que nos precederam.
Estamos, por isso, mais capazes – enquanto sociedade – de corrigir as desigualdades que temos mas, em vez disso, optamos por monetizá-las ou instrumentalizá-las.
Vai daí multiplicam-se contas em plataformas de venda de roupa e objectos em segunda mão – é a economia (a) circular –, sem que ponderemos gestos que podem fazer a diferença. Por exemplo, fazemos contas ao impacto dessas transacções nas nossas vidas, contrapondo com o impacto de uma doação na vida de quem não tem como pagar pela mesa ou casaco de que já não precisamos?
É facto que a solidariedade não se pratica por decreto, mas tem sido por decreto – que é como quem diz por escolhas governamentais – que se financiam projectos para “caridadezinhas”, em vez de se promoverem redes solidárias, assentes numa indiscutivelmente benéfica participação cívica.
O resultado dessa opção é que andamos todos a pagar, com pesados juros, uma cada vez mais incomportável factura política.
“(...) inúmeros estudos mostram que o descontentamento popular é dirigido ao processo democrático (opaco, pouco transparente, e nas mãos de uma minoria), e o que se reivindica é sobretudo maior participação popular nesse processo. Ou seja, recorrer à imaginação e criatividade, e encontrar, ou recuperar, novas formas de participação, e de descentralização do poder, como, por exemplo, a adopção de novos mecanismos de decisão.”
As palavras que cito são de José Pedro Zúquete, foram publicadas em 2016, e, uma década depois, em vez de imaginação e criatividade temos resignação e frustração. Não por falta de meios, mas por ausência de fins partilhados.
Falta-nos imaginar como transformar o mais que temos no mais que podemos ser.
Falta-nos questionar.

O que seria possível resolver, nas nossas vidas e nos nossos bairros, a partir da criação de oficinas de poderes e saberes? Poderíamos, por exemplo, ajudar pessoas com menos literacia na resposta a comunicações institucionais? Se calhar conseguiríamos fazer, na porta ao lado, aquele arranjo de costura que, de outra forma, talvez fosse encaminhado para um qualquer franchising de centro comercial. Aqui e ali, também poderíamos explicar como é que resolvemos este ou aquele imbróglio com as Finanças, ou até encontrar apoios improváveis em situações de doença.
Para mudanças mais estruturais, penso no que aconteceria se cada um de nós desse um euro, uma vez por mês, para um Fundo Popular? 10 milhões de euros para gerir, todos os meses, mas apenas e exclusivamente em respostas colectivas? Como a recuperação de edifícios para habitação, a criação de mercearias a preços justos, a dinamização de espaços de convívio e cultura, a promoção do acesso à Saúde, Justiça e Educação, o combate à desinformação...e tanto mais.
Nem todos alinhariam, estou ciente, do mesmo modo que conheço bem as desconfianças inquisitivas. Que projectos escolher? Como garantir a transparência na gestão das contribuições? Conseguimos confiar no desconhecido que temos do lado? Até que ponto somos capazes de partilhar o poder de decidir com alguém que não se expressa com a mesma eloquência, nem exibe os mesmos créditos académicos? Temos a capacidade de nos desligarmos de classificações sociais – sejam elas de classe, raça, género, nacionalidade, orientação sexual – e nos ligarmos única e exclusivamente a partir da nossa humanidade?
Acredito que sim. Tal como acredito que a mudança, num mundo governado sob a falsa promessa da distribuição da riqueza, passa pelo nosso poder de multiplicarmos presenças. Uns para os outros.

