Mais tempo para quê? E para quem?
Pergunto-me se será possível amar na urgência e na emergência em que tantos casais se encontram.
Vivemos com pressa. Corremos para chegar, aceleramos para sair, e, entre maratonas diárias, repetimos que não há tempo a perder.
Seguimos assim, freneticamente, dominados por calendários e relógios de uma ilusória produtividade, deixando-nos seduzir por tudo o que nos faça andar mais rápido.
Vai daí aumentamos a velocidade com que ouvimos áudios no WhatsApp, e, quase sem pestanejar, activamos o mesmo automatismo para avançar o ritmo de visualizações de vídeos no YouTube.
Cada vez mais desligados do nosso ritmo biológico, perecemos indiferentes à descaracterização e robotização da comunicação e, com o mesmo afã quotidiano, confiamos alimentos a engenhos que despacham refeições, dispensando-nos de maiores cuidados de supervisão.
O que dizer então da rapidez com que aceitamos transferir competências cognitivas para a "inteligência" dos Chat GPT da vida?
De “ganho” em ganho" de tempo, onde investimos os “extras” que os encurtares de distância – e de vistas – nos dão? Desperdiçamos em intermináveis movimentos de scroll down? Ou transferimos para a conta dos lucros do patronato, nunca suficientemente abonada?
Aqui chegados, que tempo conseguimos reservar para nós e para as nossas relações?
Temos vagar para sentir e nos deixarmos ir, ou estamos tão programados para resultados, e de tal forma viciados em atalhos, que desistimos ao primeiro "desvio" que nos “atrasa” do caminho perfeitamente esboçado?
Nesta vida de alta velocidade executiva e cada vez mais baixa sensibilidade humana, ainda há espaço para a conquista, a sedução e o romance? Ou queremos sentir tudo e ter todas as certezas ao primeiro encontro?
Procuramos seguir caminho conscientes de nós, e atentos à pessoa – e pessoas – que temos do lado, ou andamos numa marcha tão desenfreada que não conseguimos sequer perceber que estamos a confundir as bermas com a estrada?
Como alguém que tem sempre muitos questionamentos, percebi, com a voragem dos anos, que a velocidade acelerada que ponho muitas vezes no fazer, desregula o meu ritmo e capacidade de sentir.
Foi assim que, tantas vezes apanhada em dessensibilização, aprendi que preciso do meu tempo para amar. Não um tempo contabilizado em dias e horas, mas antes em respiração, sem ansiedades de estar, porque se renova no viver.
Pergunto-me se será possível amar na urgência e na emergência em que tantos casais se encontram. Suspeito que não.
Não por descrença romântica, e sim por entender que amar requer disponibilidade, cuidado, vulnerabilidade, entrega e intimidade. Acredito, por isso, que só se pode conjugar num fruir de vagar, incompatível com a pressão de tantos encontros, ‘armadilhados’ pela pressa de determinar, de caras, se a dupla vai ou não resultar.
Penso, então, no benefício de aceitarmos, desde o primeiro momento, que a pessoa que vamos conhecer é um ser humano real com múltiplas imperfeições, e não a nossa fantasia. Nem tão-pouco o equivalente a um shot de satisfação instantânea que, de um trago, nos arrasta para uma monumental ressaca.
Mas, no meio de tantos automatismos e escapismos, será que ainda conseguimos saborear e apreciar diferenças e até divergências? Ou será que, entre desgastes quotidianos de polarização, o igual tornou-se o ideal?
Faltará energia para discordar, argumentar e conciliar, e, por isso, escolhemos abandonar?
Enquanto nos esvaziamos de entendimentos – de nós, dos outros e da vida que arrastamos e não levamos – depositamos no consumo, disto e daquilo, ânsias de alívio.
Não estranha, por isso, que embarquemos em lógicas de satisfação e compensação imediatas, que, quando não obtidas, activam em nós dinâmicas de substituição.
Partimos, então, em busca de uma actualização da ‘oferta’, inebriados num sentimento de insatisfação que parece insaciável.
E, enquanto o GPS do capitalismo nos encaminha para o abismo, quantos de nós assumem o poder de que todos dispomos de recalcular a rota, desligar a máquina e respirar? Quantos de nós, trabalhadores, avançariam para uma paralisação global, exigindo habitação digna, horários humanos, salários ajustados aos custos de vida, e políticas de Paz e Justiça?
Confio na força colectiva, e sei que a Humanidade ainda não está perdida. Mas inquieta-me que, de tão acelerados que andamos, fiquemos cada vez mais desencontrados. Ou, como alertou Maria Gorjão Henriques, numa das conversas da quarta temporada d’ O Tal Podcast, “nunca foi tão urgente honrarmos o nome da raça humana”.
Aproximemo-nos!