Não é falta de talento. É falta de acesso.
O que acontece quando as narrativas sobre os jovens não coincidem com as suas realidades?
O que acontece quando as narrativas sobre os jovens não coincidem com as suas realidades? Quando os discursos públicos falam de “falta”, mas o que se encontra no terreno é talento, criatividade e resiliência que permanecem invisíveis?
Estas perguntas atravessaram o meu percurso profissional, desenvolvido no trabalho com jovens em contextos de intervenção social e formação. Voltaram a emergir no passado dia 24 de janeiro, Dia Mundial da Cultura Africana e Afrodescendente, quando moderei o painel “Reforçar oportunidades nos bairros através dos jovens” na Biblioteca Municipal de Loures, a convite do coletivo Kau Clau.
Não encaro este momento como um evento isolado, mas como parte de um percurso construído no terreno. Ao longo dos anos, confirmei que o problema raramente é falta de talento. É, quase sempre, falta de acesso, reconhecimento e escuta.
Os dados confirmam esta desigualdade: em Portugal, o desemprego jovem permanece muito acima do registado na população adulta. De acordo com a Pordata, trata-se de uma diferença estrutural e persistente, que coloca o país entre os contextos mais frágeis da União Europeia no que diz respeito à integração dos jovens no mercado de trabalho.
No entanto, estes dados mostram apenas a superfície estatística de um problema estrutural mais profundo. A Pordata não torna visível a desigualdade territorial fina, bairro a bairro. Não capta diretamente a interseção entre pobreza, raça, território e exclusão. Na média estatística, os jovens dos territórios marginalizados estão incluídos — mas as suas condições específicas ficam diluídas e invisibilizadas.
Na prática, isto significa que o desemprego jovem não é apenas um fenómeno económico: é o reflexo de um sistema que distribui oportunidades de forma profundamente desigual, muito antes de os jovens entrarem no mercado de trabalho.
Mas reforçar oportunidades nos bairros através dos jovens não é apenas uma questão de emprego. É uma mudança de paradigma. Significa passar de uma lógica assistencialista para uma lógica de capacitação, protagonismo e co-criação. Não se trata de “levar soluções”, mas de reconhecer os jovens como agentes de mudança, criar condições reais para que transformem os seus contextos e investir em talento, redes, voz e autonomia.
Durante a conversa em Loures, os jovens em representação do coletivo Kau Clau trouxeram uma outra narrativa: a de que os seus bairros são muito mais do que aquilo que é repetidamente mostrado nos media. Falaram de talento e criatividade sistematicamente ignorados, não por falta de capacidade, mas porque as prioridades básicas acabam por ocupar o lugar dos sonhos. Não falta potencial. Falta espaço, tempo e condições para que ele possa florescer.
O painel revelou a urgência de escutar outras narrativas e de rever os nossos pressupostos. Um lembrete de que os jovens não são apenas “o futuro” — são o presente que nos interpela. Reforçar oportunidades passa por reconhecer que participação, reconhecimento e dignidade são condições fundamentais para qualquer transformação social.
Quando um jovem se sente reconhecido, apoiado e capacitado, o bairro deixa de ser um lugar de fuga e torna-se um lugar de construção. Foi isso que escutei dos jovens do coletivo Kau Clau.
Talvez o maior desafio não seja perguntar o que os jovens precisam, mas o que nós — instituições, técnicos, decisores — precisamos desaprender para finalmente os escutar.
Porque reforçar oportunidades não é retirar pessoas dos seus contextos, mas fortalecer os contextos a partir das pessoas que lá vivem. E isso exige uma mudança profunda: de políticas feitas para os jovens, para políticas construídas com os jovens.



