O que mais é preciso fazer?
Persistir em construir, mesmo quando as estruturas continuam desiguais.
Não, não queremos vingança.
Queremos existir — com dignidade, com autonomia, com menos obstáculos colocados deliberadamente no nosso caminho.
Este “nós” de que falo não é representativo nem pretende falar por todas as pessoas negras. É um nós construído na escuta. Na soma de muitas conversas, experiências, silêncios e exaustões partilhadas. É um nós que nasce da consciência de que há um sentimento comum: não queremos privilégios, queremos condições justas.
Quando, a convite do Miguel Cardoso, participei num dos painéis do Black European Summit, afirmei algo que continuo a sustentar: tenho a convicção de que não queremos vingança. Porque, se a quiséssemos, não continuaríamos tão pacíficos perante tanta injustiça histórica e estrutural.
No final do painel, Paula Fiuza — investigadora na área da Sociomuseologia, doutoranda que trabalha memória afetiva, migração e ética do cuidado — aproximou-se de mim. Disse-me que aquela frase a tinha tocado profundamente. Falámos sobre responsabilidade histórica, sobre escuta e sobre o poder dos pequenos gestos.
E ficou em mim a imagem do beija-flor, metáfora que ela desenvolve: a ave que, perante a floresta em chamas, insiste em levar pequenas gotas de água no bico. O gesto é mínimo, mas não é irrelevante. Não apaga o incêndio sozinho, mas recusa a indiferença.
Talvez seja isso que temos feito. Não responder com ódio ao ódio. Não reproduzir a violência que nos atravessa. Persistir em construir, mesmo quando as estruturas continuam desiguais.
Quando leio que, desde 1957, a França mantém controlo significativo sobre reservas de vários países africanos, não vejo apenas um dado económico. Vejo amarras. Vejo dependências estruturais que limitam autonomias e perpetuam assimetrias. O colonialismo pode ter mudado de forma, mas não desapareceu. Sofisticou-se. Tornou-se financeiro, institucional, narrativo. E enquanto essas amarras existirem, falar de igualdade global será sempre parcial.
Nomear isto não é vitimismo. É literacia histórica.
Também nos espaços simbólicos — seja num estádio, numa empresa ou numa universidade — continuam a surgir episódios que revelam como o corpo negro ainda é rapidamente desumanizado quando ousa brilhar. Não são casos isolados; são sintomas de uma estrutura que resiste a reconhecer plenamente a nossa humanidade.
Eu não acredito em combater ódio com ódio. Mas pergunto-me, com honestidade: que mais é preciso fazer? O que falta para que a ideia de convivermos com base na aceitação e no respeito deixe de ser discurso inspirador e se torne realidade tangível no quotidiano?
Eu não quero vingança.
Quero viver numa sociedade onde a justiça não seja um ideal distante, mas uma experiência concreta.
Quero um futuro que não precise de ser defendido todos os dias — apenas vivido com tranquilidade.


