Notificações de solidariedade
Convosco renovo um dos meus mantras de vida: “Enquanto eles capitalizam a realidade, eu socializo os meus sonhos”.
Fizeram-se presentes. Por telefonema, mensagens de WhatsApp, reacções e comentários no Instagram e LinkedIn, partilhas em stories, e repostagens no Facebook.
Numa rede solidária que me comove, pessoas próximas e distantes, amigas, conhecidas e também desconhecidas, ofereceram-se prontamente para ajudar.
26 mil euros de condenação? Faça-se uma vaquinha.
Hipótese de contestação? Avance-se com recurso judicial.
Nos últimos dias, enquanto fui lidando com o pesadelo de uma sentença de despejo e cobrança abusiva de rendas – num processo já descrito e detalhado no Afrolink – também fui renovando o sonho de uma vida afectiva e efectivamente comunitária.
Uma vida de afirmação individual e colectiva, e não de submissão aos poderes instituídos. Uma vida de participação cívica, e não de conformismos políticos; de responsabilização individual e não de apatia anestesiante. Uma vida movida a esperança, e não paralisada pelo medo.
O que podemos, se estivermos muitos – mesmo que não todos, todos, todos – contra os poucos que prosperam ao tornar o mundo cada vez mais desigual?
Como seria se tivéssemos coragem para recusar – e denunciar – aumentos de renda à margem do que a lei determina? Como seria se em vez de nos resignarmos diante dos ataques aos direitos trabalhistas, decretássemos mais do que um dia de greve geral? Como seria se nos mobilizássemos para corrigir os erros do sistema?
Enquanto devoto esperança e confiança na Justiça, para me defender de uma sentença, penso na indignidade de quem recorre aos tribunais com alegações que sabe inexistirem, e confrange-me perceber como a capitulação – fantasiada de negociação – se está a cristalizar como norma.
Encontro-a entre consultas jurídicas, que desesperadamente fui procurando. “Pode recorrer, mas o mais certo é apenas ganhar tempo”, ouço de um lado. “Olhe que negociando poupa tempo, dinheiro e chatices”, dizem-me do outro, e não falta quem repita o argumento que, pela sua arbitrariedade, me bato por contestar: “Aos olhos da lei, ao não se opor à notificação, confessou”.
Certo, mas como me opor sem ter sido notificada? Não deve a Justiça estar obrigada a exigir prova da minha notificação, antes de avançar para uma sentença? Que Estado de Direito podemos ter se quem jura, sob compromisso de honra, exercer a advocacia “como servidor da humanidade, da justiça, do direito e da lei” desiste de o fazer?
Quando foi que prescindimos de fazer e defender o que é certo, para nos encostarmos ao que nos é mais confortável – por maior que seja o desconforto que cause nos outros?
Quando deixámos de questionar, e de nos questionarmos?
Sigo perguntando e lutando. E, por mais que não tenha como saber como é que o meu processo vai acabar, sei que já escrevi a Deus e ao mundo para que o Estado reconheça e corrija a arbitrariedade que me trouxe até aqui.
Sei também que sem uma advogada disposta a dar luta, de nada me valeria pedir Justiça, invocando a injustiça para qual fui empurrada.
Também por isso, reforço a convicção de que é na soma de capacidades e potencialidades individuais que criamos novas possibilidades de colectivo.
Justamente à letra do que escreveu e cantou Raul Seixas: “Sonho que se sonha só é apenas um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é realidade”.
Hoje agradeço a todas as pessoas que, nos últimos dias, têm sonhado comigo a minha permanência na casa que habito, e, com ela, a anulação do pagamento, indevidamente cobrado, de dois anos de rendas comprovadamente pagadas.
Convosco renovo um dos meus mantras de vida: “Enquanto eles capitalizam a realidade, eu socializo os meus sonhos”.


