Novo episódio: Aoaní
“O sonho americano é um pesadelo. Vivia em estado de alerta 24 sobre 24 horas. Estou a falar principalmente da questão racial”
Em vésperas de subir ao palco com a peça “Kabeça Orí”, que estará em cena no Teatro São Luiz, em Lisboa, de 11 a 18 de abril, Aoaní revela, neste episódio de “O Tal Podcast”, como a representação sempre fez parte dos sonhos de infância, igualmente povoados de aspirações jornalísticas. Hoje com um percurso profissional que cruza as duas áreas, a atriz revisita várias etapas desse caminho, desde a saída de São Tomé e Príncipe alargado a Portugal, Brasil, Angola e EUA, onde se casou, divorciou, e se apanhou a viver em estado de alerta racial.
Apresenta-se livre de apelidos, à imagem da icónica ‘Queen Bey’. “A Beyoncé não tem apelido. Percebi que não há necessidade de ter um. Portanto, achei interessante responder só por Aoaní”.
O posicionamento, explica a convida de Georgina Angélica e Paula Cardoso, não deve ser confundido com eventuais tentativas de distanciamento e apagamento familiar.
“Os Salvaterra não têm papas na língua. São uma força da natureza, têm sempre opiniões fortes. E eu acabo por ser assim, porque a minha mãe também é”, adianta, vinculando-se ao sobrenome materno, enquanto identifica outras heranças parentais.
“O stand-up entra na minha vida porque sou palhaça, tanto [da parte] do pai como da mãe”, nota a atriz, lembrando que a avó Lourença, que faleceu no ano passado, com quase 102 anos, “era muito gozona”.
Mais do que um traço herdado, Aoaní vê nos gracejos uma via de resistência.
“É muito presente nas nossas vivências o rir para não chorar. É um bocado de espírito de sobrevivência”.
O reconhecimento de experiências transversais às vidas negras não é, contudo, sinónimo de indiferenciação individual, avisa a atriz.
“Não sou representante de ninguém, não carrego o povo negro às costas. Sou negra e, se as pessoas se revirem na minha história e na forma como eu crio, fantástico”.
Agora com um novo espetáculo, intitulado “Kabeça Orí”, a são-tomense prepara-se para subir ao palco do Teatro São Luiz, em Lisboa, de 11 a 18 de abril, na companhia de Joyce Souza.
A proposta autoral dá resposta à necessidade de abrir caminho. “Em Portugal, ainda temos pouco espaço no mercado, mas creio que a solução seja criar as nossas histórias e contá-las, criar o nosso próprio espaço. E é isso que tenho feito, ou tentado fazer”.
O resultado que agora já se apresenta no palco, passou primeiro por um laboratório de aprendizagens, que tiveram nos Estados Unidos um eixo primordial.
“O que me levou para os EUA foi a idealização de Hollywood, de trabalhar na Broadway, porque eu achei que era só chegar e ir”.
Não foi. Muito pelo contrário.
Se no início a dificuldade estava em arranjar trabalho sem documentos, depois de se casar e obter o Green Card, a falta de uma rede de apoio e de seguro de Saúde revelaram-se obstáculos intransponíveis, agravados por um permanente estado de vigilância racial.
“De cada vez que fosse parada, numa paragem de trânsito, normal, ficava muito aflita, porque não sabia se iria sair viva”, recorda, sem esquecer o impacto familiar.
“Uma amiguinha do infantário, ou ‘inimiguinha’, disse à minha filha que não podia ser uma princesa por ser preta. Isso para uma criança de 5 anos foi brutal. Ela chegou a casa a chorar”, diz Aoaní, sublinhando o peso das conversas que se seguiram.
“Tivemos todo um processo de reforço da autoestima. O trabalho é constante, até hoje”, destaca a atriz.




