Em Portugal, para apresentar o álbum “Améfrica”, que a 31 de outubro sobe ao palco do Centro Cultural de Paredes, a cantora e compositora brasileira Bia Ferreira partilha, neste episódio d’ “O Tal Podcast”, a alegria que marca esta fase da sua carreira, depois de um início marcado pela dor. Hoje dona do próprio selo discográfico, a também ativista está nomeada para um Grammy Latino, mas faz questão de sublinhar que não corre atrás de prémios. “A minha meta é construir um legado que daqui a 100 anos inspire meninas negras do Brasil, através da minha arte”.
Amor, alegria e leveza dão as notas para “Améfrica”, o mais recente álbum de Bia Ferreira, financiado e produzido de forma independente.
Depois de anos a cantar a dor, a compositora brasileira percebeu que queria partilhar não apenas aquilo que a fere, mas também aquilo que a cura. “A alegria é a maior forma de subversão num mundo que naturaliza o ódio”, defende, sem nunca abandonar o compromisso de olhar de frente para as violências e desigualdades que atravessam o mundo. Como a morte recente de um irmão, assassinado pela polícia no Brasil.
A má notícia apanhou-a em digressão nos EUA, e, revela a artista, confirmou a força regenerativa da arte, quando, no final de um concerto, foi tolhida pela emoção.
Incapaz de cantar a última música do alinhamento, Bia partilhou com o público a sua tristeza, e foi surpreendida com uma fila de abraços, que lhe reforçou a convicção: “Acredito no poder da arte porque sou a prova viva de que ela tem um poder transformador”.
Desde 2019 com uma presença regular em Portugal, a compositora fala das aprendizagens que o país lhe tem proporcionado, nomeadamente a partir da necessidade de compreender diferentes códigos culturais. Neste processo, a artivista conta que descobriu novas palavras, expressões e silêncios que acabaram por transformar a sua própria linguagem e a levaram a repensar a forma como se dirige ao público.
Do outro lado do Atlântico, no seu Brasil de nascimento, Bia encontra várias referências, como Conceição Evaristo, Leci Brandão e Lélia Gonzalez, a quem foi buscar inspiração para “Améfrica”.
Interessada em imaginar outras possibilidades de vida, encontrar pertença e construir um legado capaz de inspirar futuras gerações de mulheres negras, a artista sublinha a importância de honrar quem veio antes. É também a partir da própria história, marcada pela violência de ter sido submetida a terapias de reversão da sua orientação sexual, que defende o acolhimento das pessoas LGBTQIAPN+, e a urgência de enfrentar o avanço do conservadorismo: “Isso não é sobre política, é sobre humanidade”.




