Novo episódio: Carlos Kangoma
“Assusto-me quando vou ver as notícias. Sinto que estamos a descair para um certo regime, um tipo de fascismo light”
Após cerca de vinte anos dedicados ao rap, a pandemia obrigou Carlos Kangoma, também conhecido por Lucy, a reinventar-se. Hoje é à frente do seu restaurante de gastronomia libanesa, o Mankooche, que encontra independência financeira para continuar a lutar pela justiça social e bem-estar coletivo. Além de refletir sobre o percurso que o levou da música ao ativismo, o convidado deste episódio d’ “O Tal Podcast”, defende que o rap pode ser “uma forma de jornalismo”, capaz de dar voz às comunidades periféricas e desafiar a ideia de que “o bairro é só criminalidade e violência”
Ao longo da conversa, Lucy regressa ao bairro onde cresceu para refletir sobre uma infância marcada pela discriminação, repressão policial e ausência de oportunidades. Recorda que o primeiro contacto com a polícia aconteceu quando tinha apenas 11 ou 12 anos, enquanto jogava à bola, e descreve uma realidade em que “existe uma marginalização e uma discriminação feita de uma forma bastante violenta a nível físico e psicológico”.
Apesar disso, rejeita os estereótipos frequentemente associados às periferias e lembra que é dali que saem muitos dos trabalhadores que garantem o funcionamento da cidade, destacando também o forte sentido de comunidade que caracteriza estes bairros.
Filho de pais que fugiram de Angola depois da independência, Lucy fala ainda sobre o peso do trauma migratório e da herança colonial, refletindo sobre as desigualdades que continuam a marcar a sociedade portuguesa. Um dos exemplos que aponta é o sistema educativo, que considera “muito eurocêntrico”, e que, na sua perspetiva, falha em valorizar a diversidade cultural e em oferecer referências positivas às novas gerações.
A música surge, por isso, como uma forma de responsabilidade social. Para Lucy, quem cria também influencia, e isso implica um compromisso com a realidade de quem raramente vê a sua experiência representada no espaço público.
Neste episódio, fala também do trabalho desenvolvido pelo movimento Vida Justa, onde o ativismo acontece no terreno, junto das comunidades. Defende que “o ativismo é uma forma de resistência” e sublinha a importância da organização coletiva para enfrentar as desigualdades, acreditando que a transformação social depende da capacidade das pessoas se unirem para reivindicar direitos e construir um futuro mais justo.




