Novo episódio: Cátia Severino
“É importante esta sociedade começar a assumir que ser português não é ter um perfil específico. A Cova da Moura é tão Portugal como o Saldanha”
Veio de Angola na barriga da mãe, e foi no Algarve que nasceu e cresceu antes de se mudar para Lisboa, onde construiu uma trajetória académica na área da Linguística. Convidada deste episódio d’ “O Tal Podcast”, Cátia Severino descreve a entrada no ensino superior como a “realização de um sonho de sobrevivência”, enquanto única via possível de mobilidade e dignidade, numa vida marcada pela precariedade, e guiada pela resiliência e educação.
Do Algarve para Lisboa, Cátia trouxe não apenas o desejo de estudar, mas também um percurso atravessado pelo esforço contínuo: trabalhar de noite, estudar de dia, e sustentar um ritmo de sobrevivência que se prolongou muito além da licenciatura. Mesmo após o mestrado, doutoramento e pós-doutoramento, o descanso parecia sempre adiado. Só mais tarde, com apoio pessoal, conseguiu finalmente reconhecer e habitar as suas conquistas.
Ao longo da sua trajetória, confrontou-se com várias experiências de discriminação, inclusive dentro da academia. Para começar, o seu sotaque “afro-algarvio” era frequentemente lido como menos legítimo. Somou-se a isso uma reprovação no 12.º ano, que alterou profundamente o seu percurso escolar, episódio que a obrigou a mais um ano de esforço, e que expõe as desigualdades muitas vezes naturalizadas no sistema educativo.
Cátia reflete ainda sobre o “branqueamento social” do seu percurso, num meio académico onde se tornou frequentemente a única pessoa negra portuguesa.
A sua experiência é também marcada por uma reflexão profunda sobre identidade, pertença e colorismo. Entre o Algarve e Lisboa, Portugal e Angola, Cátia descreve o impacto constante da pergunta “de onde és?”, apesar de ter nascido em Portugal.
As suas viagens a Angola ativaram uma ligação íntima com a terra dos pais, mas também a consciência de uma identidade híbrida, que define como afro-portuguesa ou portuguesa negra.
Neste episódio, Cátia revisita ainda a história familiar atravessada pela guerra, o colonialismo, e pela migração, destacando figuras como a sua avó Angelina. Ao mesmo tempo, recorda os efeitos dolorosos do colorismo dentro da própria família e comunidade, onde o tom de pele podia determinar aceitação ou exclusão. Para Cátia, negar essa complexidade seria negar a própria história.




