Elga Fontes cresceu rodeada de histórias. Por influência dos pais e dos avós, cedo os livros tornaram-se parte da sua vida, e acabaram por se tornar parte essencial da sua identidade e percurso profissional. Hoje é tradutora, revisora, editora, criadora de conteúdos sobre livros e autora do projeto “Quem Me Lera”. Coordena ainda a Kiala - nome que significa “trazer luz”-, uma chancela da Vírgula Interrogação exclusivamente dedicada à publicação de autores negros em Portugal.
Com raízes familiares em Angola e Cabo Verde e nascida em Portugal, Elga cresceu entre diferentes referências culturais, numa multiplicidade de vivências que lhe permitiu alargar os horizontes e questionar a ideia de uma única forma de ver e habitar o mundo. Mais tarde, enquanto leitora e profissional do setor editorial, deparou-se com uma realidade que a inquietava: a enorme sub-representação de autores negros no mercado português.
A criação da Kiala nasce dessa inquietação, mas também da vontade de intervir num mercado que considera pequeno e avesso ao risco. “Há muita produção de literatura por autores negros que não chega a Portugal. Muitos destes livros têm imenso sucesso, só que depois há um bloqueio que faz com que eles não cheguem cá”.
Para Elga, esse ‘travão’ não pode ser dissociado do racismo estrutural: “Portugal é um país racista e esse racismo acaba também por chegar a uma editora.”
Nesta conversa, fala ainda sobre a importância de divulgar livros e criar comunidades de leitores, estimulando hábitos de leitura, bem como sobre a experiência de partilhar recomendações literárias nas redes sociais, através do projeto “Quem Me Lera”.
A aceitação do corpo, a liberdade de expressão e as referências que a foram transformando, não apenas como leitora, mas também como profissional, são também temas neste episódio, onde duas obras de Audre Lorde sobressaem: “Irmã Marginal | Sister Outsider”, e “Os Usos da Raiva”, ensaio que lhe permitiu repensar a forma de falar sobre o racismo. “Deu voz a tanta coisa que sentia e que tinha de calcar”, conta, peremptória na apreciação: “Mudou completamente a minha abordagem emocional à violência racista”.
Entre sugestões de livros, publicações nas redes sociais e as novas funções editoriais, Elga reflete sobre identidade, representação e a procura de uma voz própria, mas também sobre a responsabilidade de abrir espaço para que outras vozes possam ser ouvidas.




