Novo episódio: Grada Kilomba
“Temos que aprender a aceitar quem as pessoas são e saber negociar, estar com essas almas. Há dificuldade em dialogar, porque há dificuldade em escutar”
Inaugurou, no passado dia 2 de junho, em Paris, o “Memorial para o Genocídio dos Tutsis no Ruanda”, numa cerimónia de Estado, que contou com a presença do Presidente da França, Emmanuel Macron, e do seu homólogo ruandês, Paul Kagame. Dias antes, a 30 de maio, estava em Sintra, na abertura da exposição “O Fundo do Mundo”, patente até 26 de setembro na Albuquerque Foundation. Dona de uma abordagem artística que corre mundos, Grada Kilomba é a convidada deste episódio d’ O Tal Podcast.
Reconhecida internacionalmente pelo seu trabalho sobre memória, colonialismo, raça, género, linguagem e poder, Grada Kilomba tem desenvolvido uma prática artística que cruza literatura, performance, instalação, vídeo e encenação. “O conhecimento tem que ser cruzado, estar constantemente em diálogo”, afirma.
Artista transdisciplinar, com raízes em Angola e São Tomé e Príncipe, Grada fala sobre o seu mais recente projeto: “O Memorial para o Genocídio dos Tutsis no Ruanda”, instalado em Paris.
Encomendada pelo Estado francês, como reconhecimento da cumplicidade naquele genocídio, a obra representou o maior desafio da sua carreira. “A maior honra para um artista é ser convidado para pensar, elaborar e criar uma obra em honra de um milhão de pessoas assassinadas num genocídio”, partilha.
Ao longo da conversa, Grada reflete sobre o processo de criação de uma obra que procura representar o aparentemente irrepresentável: a violência, a perda, o silêncio e a memória. Fala sobre as viagens que realizou a Kigali, dos encontros com sobreviventes e descendentes das vítimas, e da influência da tradição artística ruandesa Imigongo na construção do memorial. “Uma coisa é trabalhar sobre um tema, outra coisa é vivenciar e conversar diretamente com as pessoas que vivenciaram esse tema”, sublinha.
Grada aborda também o papel da arte numa sociedade marcada por conflitos, desigualdades e traumas históricos. Na sua leitura, a tarefa do artista passa por abordar os assuntos com os quais a sociedade tem dificuldade em lidar, criando novos vocabulários e imaginários. “Trabalho com temas extremamente violentos, como a morte, a exclusão, a desumanidade, o genocídio, o esquecimento. É extremamente importante trabalhá-los, criando o belo, a poesia”.
Num diálogo que atravessa a arte, a educação, a espiritualidade e a transformação pessoal, Grada Kilomba reflete ainda sobre a importância da transdisciplinaridade, do corpo como linguagem artística, e da necessidade de cultivar espaços de escuta e colaboração. Critica modelos educativos assentes na fragmentação do conhecimento e defende formas de aprendizagem baseadas no diálogo e na construção coletiva.
Entre memórias, silêncios e processos criativos, a artista deixa uma reflexão sobre um dos grandes desafios do nosso tempo: a incapacidade de escutar verdadeiramente o outro. “Estamos num momento absolutamente catastrófico, rodeados de guerras, genocídios, ocupações, cumplicidades internacionais, violência explícita e o que parece absolutamente constante é a incapacidade de diálogo.”




