Novo episódio: Miguel Sambé
“Desacelerar não é importante apenas para o planeta; é também importante para nós, enquanto seres humanos. É por isso que gosto tanto desta frase: 'Sou ser humano, mas não sei ser humano”
Especialista em análise geoespacial e ciência climática, videógrafo e fotógrafo, Miguel de Andrade Sambé é o único português na Agência Espacial da Tailândia, onde desenvolve projetos ligados às alterações climáticas através de imagens de satélite. Nesta conversa para “O Tal Podcast”, este filho de pai guineense e mãe angolana, nascido e criado em Portugal, fala sobre a “triangulação de identidades” que marca profundamente a forma como olha para o mundo.
Quando aos 28 anos viajou pela primeira vez para a Guiné-Bissau, Miguel somava já mais de 20 países na sua rota de voos. Mas foi esse destino, de encontro com a terra natal do pai, que marcou um antes e depois. “Em África aprendi a não olhar, mas sim a observar”, conta o geoengenheiro que, a par das viagens, tem na geografia uma grande paixão.
Desde a infância estimulado pelos pais a aprender, foi com eles que o também videógrafo despertou a curiosidade pelo mundo e pelo conhecimento. Mais tarde, dividido entre o atletismo de alta competição no Sporting e a ciência, acabou por seguir uma carreira internacional na área da engenharia geográfica, desenvolvendo a fotografia e a videografia como linguagens complementares ao trabalho científico. “A ciência dá-me a confirmação matemática; a fotografia e o vídeo dão-me a confirmação e a conexão espiritual com a Terra.”
Ao longo da conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, Miguel reflete sobre a importância de valorizar o conhecimento local, defendendo que pescadores, agricultores e comunidades tradicionais possuem saberes essenciais para compreender fenómenos ambientais e enfrentar as alterações climáticas. Para o investigador, a ciência deve aprender a escutar essas vozes. “O conhecimento científico é apenas um acessório. A base, essa, é o conhecimento local.”
Outro dos grandes temas abordados neste episódio é a necessidade de a humanidade abrandar. “Desacelerar não é importante apenas para o planeta; é também importante para nós, enquanto seres humanos. É por isso que gosto tanto desta frase: “Sou ser humano, mas não sei ser humano”,
Miguel de Andrade Sambé aborda também o racismo que enfrentou durante a infância, a educação exigente que recebeu dos pais e a forma como essas experiências moldaram a sua identidade. Partilha ainda a visão de um cientista que acredita que o futuro passa por aproximar o conhecimento académico dos saberes locais, e por reaprender a observar a natureza.




