Miriam Pires dos Santos nasceu e cresceu entre três geografias: São Tomé e Príncipe, Angola e Portugal. A imersão em diferentes contextos culturais e sociais, aliada ao olhar atento às várias formas de ser e estar no mundo, despertou-lhe desde cedo um fascínio pelo comportamento humano. Essa curiosidade conduziu-a até à psicologia, área que ajuda a transformar a partir do trabalho da plataforma AfroPsis, um dos temas em destaque neste episódio d’ “O Tal Podcast”.
Enquanto estudava no ISPA - Instituto Superior de Psicologia Aplicada, Miriam Pires dos Santos estranhou a ausência de alunos negros, limitada, em toda a faculdade, a outra colega, e extensiva, ao longo da formação académica, a um vazio de referências às comunidades afrodescendentes.
Já em contexto profissional, foi a importância da sua presença que a interpelou, em particular numa casa de acolhimento onde a maioria dos jovens eram negros, levando-a a constatar a existência de um olhar pouco atento às questões de saúde mental das comunidades afrodescendentes.
Entre inquietações, a psicóloga encontrou numa conferência sobre multiculturalismo, ao ouvir o colega Henda Vieira Lopes, o “clique” de que precisava. Nascia assim uma parceria que, de contacto em convite, levou à criação da AfroPsis, plataforma de psicólogos, psicoterapeutas e técnicos de Saúde Mental afrodescendentes em Portugal.
Nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, Miriam Pires dos Santos fala sobre aquilo que é comum na experiência de pessoas negras no contexto da psicologia, explicando a importância de encontrarem terapeutas que reconheçam as suas subjetividades.
“As pessoas negras, africanas, afrodescendentes, quando chegam até mim, frequentemente relatam um alívio de não terem que estar continuamente a justificar os seus contextos familiares e culturais.”
Debruçando-se sobre as especificidades étnico-raciais, a psicóloga lembra também a existência de hierarquias raciais que persistem desde a escravatura e o colonialismo, e chama a atenção para as formas, muitas vezes subtis, através das quais se continuam a manifestar.
Miriam partilha também uma reflexão pessoal sobre o seu percurso terapêutico, e sobre o “músculo psicológico” que foi desenvolvendo ao longo dos anos, para lidar com o sofrimento e com as pressões que atravessam a sua experiência. Uma trajetória que lhe permite reconhecer a complexidade da condição humana: por um lado a nossa capacidade para as “maiores violências e atrocidades”; por outro para “as maiores misericórdias e atos de bondade”.É nesse lugar que mantém a “esperança de que o bem e a capacidade para fazê-lo não esteja totalmente esmagada”.




