Orlando Piedade é um engenheiro informático com alma de historiador. Nascido em 1974, em São Tomé e Príncipe, é através da escrita que procura concretizar o seu propósito: amplificar a voz dos marginalizados, recuperando histórias muitas vezes apagadas. Distinguido no início do ano com o Prémio Almada Negreiros pelo livro “Oeiras, Algés e Dafundo, Memórias de uma Geografia Negra”, o convidado deste episódio d’ “O Tal Podcast” acaba de publicar a epopeia “Portugal Preto - o Trilho dos Invisíveis”, um dos temas da conversa.
Depois de lançar “O Amor Proibido”, “Os Meninos Judeus Desterrados” e “Escravos e Homens Livres”, Orlando Piedade prepara-se para publicar o seu quarto romance histórico, guiado pelo fascínio por episódios pouco conhecidos do passado. “Fico obcecado à procura de qualquer coisa que nunca ouvi e nunca vi ninguém falar”.
A Área Metropolitana de Lisboa faz parte dessa busca, recentemente vertida para a obra “Oeiras, Algés e Dafundo, Memórias de uma Geografia Negra”, que no início do ano foi distinguida com o Prémio Literário INCM – Almada Negreiros, da Imprensa Nacional-Casa da Moeda.
“Oeiras e Algés Dafundo, há um século, eram consideradas terras de pretos, porque tinham grandes quintas e propriedades de senhores que empregavam fileiras de africanos”, conta o escritor, que começou por explorar episódios pouco conhecidos do seu país natal.
“Ao aperceber-me de que a história de São Tomé e Príncipe era a menos divulgada entre os países africanos de expressão portuguesa, vi uma oportunidade. Pesquisei desde o século XV ao século XVIII, e procurei saber como é que aquele xadrez foi montado”.
Curioso confesso, e obcecado por aquilo que ninguém conhece, Orlando Piedade não esconde que a descoberta de episódios históricos também traz consigo emoções difíceis de gerir.
Ao longo da conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, fala não só do trabalho de investigação, mas também da forma como aquilo que encontra acaba por moldar a sua própria visão: “O mesmo facto recolhe várias sensibilidades. Eles moldam a minha posição. Às vezes vou sentir-me horrorizado com aquilo com que me deparo ao longo da minha pesquisa”.
Um desses encontros com o passado teve um impacto particularmente profundo. Durante a escrita do romance “Os Meninos Judeus Desterrados” - que conta a história de como 2000 crianças judias castelhanas foram separadas dos pais e enviadas para São Tomé e Príncipe para povoar as ilhas - Orlando Piedade percebeu que a filha tinha a mesma idade daquelas crianças. A constatação provocou-lhe um “ataque de choro” que o deixou bloqueado na escrita durante três meses.
Acabou por recuperar, sem nunca perder a vontade de dar voz aos que não tiveram poder para contar a sua própria história, algo que considera essencial para compreender os guetos e as comunidades marginalizadas de hoje.
“Estamos perante uma parte dos invisíveis, pessoas remetidas para os guetos pelas suas condições sociais. Podemos começar a contar esta história em 1444 até chegar aos nossos dias, e conseguimos definir o perfil de quem foi parar às Covas da Moura, aos 6 de Maio, às Jamaicas”.
Reivindicando a importância de questionarmos o que aprendemos, e de conhecermos a nossa história para sabermos quem somos e para onde vamos, Orlando Piedade relembra os mitos à volta da pureza racial que, nos dias de hoje, voltam a ganhar adeptos. “A muitas das pessoas que hoje se vangloriam de pertencer a uma raça pura, dir-lhes-ia que por volta de 1500, segundo os cronistas da época, 10% da população de Lisboa era africana. Essa população não desapareceu: misturou-se, está entre nós”.
Já sobre a relevância de dar visibilidade a estas histórias, o escritor defende que “muitas vezes o grito não é falar mais alto, é procurar o local certo para falar”.
Crente na bondade das pessoas, na camaradagem e na força das ideias para a criação e a partilha, Orlando Piedade vê nessas manifestações a verdadeira “intervenção divina”, em oposição ao Deus contado na Bíblia: “Se esse Deus existe, ele anda muito distraído”, nota.




