Silvania de Barros
“A escuta é importante, sem precisar de trazer uma resolução, sem que o outro responda”
Entre a calma de São Tomé e Príncipe, onde nasceu e cresceu, e a agitação da vida que encontrou em Portugal, há mais de uma década, Silvania de Barros recorda, neste episódio de “O Tal Podcast”, como lidou com esse contraste de realidades. “Venho de uma cidade pequena, e não me sentia preparada para viver em Lisboa. Eu dizia: é muito ruído, sinto que a minha cabeça vai explodir, são muitas vozes, muitas línguas”. O processo de adaptação trouxe impactos na saúde, física e mental, um dos temas desta conversa.
Formada em Gestão pelo ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, Silvania de Barros dedica-se, desde a adolescência, vivida em São Tomé e Príncipe, a projetos de intervenção social.
Cidadã ativa em defesa da igualdade de género, a são-tomense lembra que continua a ser necessário assinalar o óbvio: esta não é uma luta apenas sobre mulheres.
Justamente por isso, ao cocriar com um grupo de amigas o grupo de leitura “Obirin”, para promover autoras negras, fez questão de o manter aberto a todas as pessoas.
“As mulheres já escrevem há séculos, só não têm visibilidade”, lamenta, recomendando a todas as pessoas que, a cada leitura, façam um exercício de reflexão.
“Quem é que escreve o livro? Do que está a falar?”.
Atenta às assinaturas, temas e geografias que acompanham as obras, Silvania recorda que a iniciativa literária surgiu online na altura da pandemia, permitindo ir além da “bolha de Lisboa”. A cidade para a qual a são-tomense admite que não estava preparada quando, em 2014, “aterrou” no rebuliço da zona do Intendente.
“Os meus amigos diziam: tens que sair de casa, faz uma caminhada e estás na Graça, tens esse privilégio porque não precisas de apanhar transportes. E eu dizia: não consigo, é muito ruído”.
Talvez por isso tenha sentido a necessidade de trabalhar o silêncio e a solitude. “Mas no início fiquei a pensar: será que me estou a esconder de algo? Somos ensinados a estar sempre com pessoas”.
Além dos ajustes de movimento, a ativista destaca os efeitos que ainda hoje sente no corpo e na mente. Dos ganhos e perdas de peso, às dificuldades com o clima, Silvania partilha, neste episódio, como as consultas médicas, de várias especialidades, se tornaram uma rotina.
“São Tomé é um país quente, mas húmido. Quando vim para Portugal, comecei a sofrer muito com a respiração. Fui a uma consulta e o médico ficou incrédulo: nunca viu alguém que pudesse fazer tantas alergias”.
Os desafios clínicos estendem-se à própria relação com os profissionais, e dinâmicas do Serviço Nacional de Saúde. “Tinha baixado 20 quilos e agora aumentei 30. E não tenho sentido um acompanhamento verdadeiro. A primeira endocrinologista pediu as análises, a segunda já estava a passar-me antidepressivos, porque dizia que precisava de dormir”. Já num terceiro momento, Silvania conta que recebeu como recomendações uma cirurgia bariátrica ou a toma de Ozempic, medicamento indicado para o tratamento da diabetes, que tem sido prescrito para a perda de peso.
Apesar das provações, a convidada desta semana de Georgina Angélica e Paula Cardoso não tem dúvidas sobre a escolha da sua geografia. “Sei de onde sou, tenho muito fincada a minha identidade, as minhas origens, mas também gosto de me sentir um corpo livre. Estou onde consigo descansar, onde o meu coração está em paz”.




