Novo episódio: Virgílio Varela
"Precisamos resgatar o que hoje estou a chamar de soberania da imaginação. Quando não a temos, somos facilmente enganados, colonizados"
Fundador da Human Fleet, facilitador internacional, contador de histórias e cultivador de possibilidades, Virgílio Varela é o convidado desta semana d’ “O Tal Podcast”. Enquanto percorremos a sua trajetória de vida, na qual tem procurado criar espaços de transformação humana e coletiva, conversamos sobre o que identifica como uma “crise de imaginação”, desafiando-nos a recuperar a capacidade de sonhar e projetar outros futuros.
Cresceu no já demolido bairro de Santa Filomena, na Amadora, onde encontrou na comunidade o primeiro espaço de aprendizagem e pertença. Foi aí que percebeu que ninguém cresce sozinho. “Estou sobre os ombros de gigantes. Foram essas pessoas que me permitiram chegar a estes lugares. Eu nunca entro num lugar sozinho. Entro com todas elas.” Uma visão coletiva que continua a orientar a forma como olha para as pessoas e o trabalho que desenvolve.
Começou por dar expressão a essa leitura do mundo na música, integrado na primeira geração do hip-hop português, tendo participado na compilação “Rapública”, a primeira do género editada no país, e por isso, reconhecidamente um marco.
De volta a esses tempos, o convidado desta semana d’ “O Tal Podcast” recorda um movimento que abriu caminho para os talentos que se seguiram, e para quem a música era também um exercício de descoberta. “Sem dúvida que os livros que lemos e as referências que tivemos nos moldaram. Mesmo na música, éramos muito diggers. O digging é ouvires um tema e quereres saber quem o produziu, de onde vem aquele sample, quem é o autor.”
Antes ainda dessas ‘escavações’ musicais, Virgílio conta que a leitura precoce do livro “The Silva Method” despertou-lhe a curiosidade por tudo aquilo que não se vê. Tinha apenas sete anos, e foi aí que começou a explorar a imaginação, os sonhos e o invisível, caminho que continua a influenciar a forma como vive, escreve e trabalha. “Quando somos crianças, vivemos muito naquilo que tocamos. ‘The Silva Method’ trouxe-me a consciência de que há coisas que não vemos, mas têm vida, têm força.”
Para Virgílio, recuperar a imaginação é vital no mundo em que vivemos: “Precisamos resgatar o que hoje estou a chamar de soberania da imaginação. Quando não a temos, somos facilmente enganados, colonizados.”
Convicto de que “navegar num mundo como o de hoje” exige “ser capaz de sair da ilha, vê-la de fora e regressar com novos recursos e ferramentas”, o facilitador defende que “vivemos uma enorme crise de imaginação.”
Nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, Virgílio Varela aborda igualmente o conceito de Ubuntu, a escrita como um exercício de sobrevivência, a cerimónia de cura que viveu durante uma travessia do Atlântico e as aprendizagens que recolheu junto de comunidades quilombolas e indígenas no Brasil. Reflete ainda sobre a necessidade de descolonizar a imaginação e reconhecer que existem outras formas de conhecimento, tão válidas quanto aquelas a que o pensamento ocidental nos habituou.




