Desde cedo habituada a quebrar barreiras, Yara Benedito Chidiamassamba aprendeu com os pais que pode ser o que quiser. Foi assim que, aos 10 anos, ousou aventurar-se no desporto, mundo que, na sua infância, ainda era profundamente masculino. Pouco mais de uma década depois, sagrou-se campeã mundial de Tang Soo Do por Moçambique, o seu país de nascimento, onde coloca a formação em Arquitetura ao serviço de uma cidade para viver e partilhar, ao mesmo tempo que leva consciência humana ao conflito em Cabo Delgado. De passagem por Portugal, no âmbito do projeto GirlMove Academy, conversou com “O Tal Podcast”.
Incapaz de ficar quieta, Yara Benedito Chidiamassamba encontrou no desporto uma forma de se manter em movimento, e no Tang Soo Do, mais do que uma arte marcial, um modo de vida, que “associa treino físico, espiritual e mental”. Uma combinação que, defende a moçambicana, é uma via de autoconhecimento e de ignição da consciência coletiva.
“O Tang Soo Do não é sobre violência. É sobre te poderes defender, estares seguro de ti, daquilo que tu és, defender a tua família, a tua sociedade e país”.
Incentivada desde cedo a superar expectativas, Yara conta que em Moçambique, o seu país de nascimento, “as raparigas não são tão incentivadas a praticar desporto quanto os rapazes”.
Apesar das barreiras de género, a convidada deste episódio d’ “O Tal Podcast” não só conseguiu sagrar-se campeã mundial de Tang Soo Do, em 2012, como foi a única da delegação moçambicana a levar uma taça para casa, nesse ano.
Cerca de 15 anos depois do título, a mentalidade vencedora de Yara está consolidada como um dos seus principais cartões de visita.
Arquiteta de formação, ainda durante a faculdade criou a plataforma Maquetheia, com a qual dinamiza workshops para crianças, usando maquetes para promover o direito à cidade e estimular uma consciência urbana.
Empenhada na intervenção cívica, Yara acabou por ser selecionada para o programa da GIrlMove Academy, dedicado à liderança feminina e empreendedorismo social, etapa fundamental para assumir o desafio que se seguiu: trabalhar em ajuda humanitária.
Foi assim que, em 2021, trocou Maputo por Cabo Delgado, região que enfrenta, desde 2017, um conflito armado que provocou milhares de mortes e deslocou mais de um milhão de pessoas. Através do VAMOZ — Voluntários Anónimos de Moçambique —, tem escutado e apoiado pessoas afetadas por este conflito: “As comunidades sentem-se esquecidas por estarem tão longe. O mais marcante para mim é podermos chegar lá, e apoiar as pessoas com o pouco que temos”.
Também em Cabo Delgado, Yara está envolvida num projeto que aposta no bambu para abrir novos caminhos aos agricultores locais. A ideia é transformar esta planta numa fonte de rendimento, criando oportunidades económicas para as comunidades enquanto se promove uma relação mais sustentável com o ambiente.
Na liderança de várias frentes, a convidada deste episódio d’”O Tal Podcast” considera que “a liderança é poder ser uma referência para alguém que também quer ser líder”. É esta visão que leva para o movimento Manas, que reúne mais de 300 jovens mulheres moçambicanas ligadas à educação, ao desporto e ao empreendedorismo. “Uma pessoa pode fazer a diferença, mas se todos nos unirmos, podemos amplificar cada vez mais o impacto que queremos causar nas nossas comunidades”.




