O Arquivo Colonial do Afeto
"E, como nos lembra bell hooks, o amor é também um espaço político, atravessado por sistemas de dominação e por feridas herdadas"
Sempre que defendo relações entre pessoas negras observo, com frequência, um certo desconforto. Como se essa reflexão implicasse, automaticamente, uma condenação das relações interraciais. E está longe de ser esse o meu lugar.
Quando falo, falo a partir de um percurso. De alguém que, durante um período da vida, esteve profundamente atravessada por uma ignorância que não era apenas individual, mas estrutural — a de não reconhecer o impacto da escravatura e da colonização nas nossas escolhas afetivas, nos nossos desejos e nas nossas referências.
Curiosamente, foi neste fim de semana, num exercício consciente de presença e descanso, que esta reflexão voltou a ganhar força. Assistir à série Novas Narrativas de Caça surgiu como ponto de partida para um conjunto de questões que se reacenderam, sobretudo sobre relações interraciais e a forma como o amor raramente se apresenta como território neutro, estando atravessado por história, poder, desejo e identidade.
Foi mais tarde que comecei a compreender aquilo que Frantz Fanon tão bem analisou: o desejo não nasce num vazio, é moldado por uma história onde a branquitude se construiu como lugar de validação. E, como nos lembra bell hooks, o amor é também um espaço político, atravessado por sistemas de dominação e por feridas herdadas.
Recordo-me de expressões como “avançar a raça”, que, quando as escutei, não me assentaram bem. Provocaram-me desconforto, até revolta. Hoje compreendo melhor esse desconforto como parte de um processo de consciência. Aquilo que sentimos nem sempre é apenas nosso — é também histórico.
Já o disse em vários fóruns: o facto de ter um filho negro foi um ponto de viragem, levando-me a pensar como prepará-lo para um mundo onde o seu fenótipo não passa despercebido — revelando, em simultâneo, os mecanismos de leitura social e as possibilidades de poder, beleza e identidade que nele coexistem.
É também aqui que autoras como Patricia Hill Collins e Audre Lorde nos ajudam a pensar a possibilidade de as relações entre pessoas negras como espaços de reconhecimento, identificação e reparação — não pela ausência de conflito, mas por abrirem um lugar fora da lógica da exotização.
Ainda assim, também elas são atravessadas por feridas coloniais e internalizações históricas, mas podem abrir espaço para uma intimidade menos mediada e mais enraizada na pertença.
No fim, a questão não é apenas com quem nos relacionamos, mas a partir de que lugar nos relacionamos. Amar pode ser também um lugar onde desaprendemos o que nos disseram sobre quem somos, para finalmente encontrarmos o outro sem repetirmos a história que nos moldou.


