O depósito de experiências que dá créditos em vida
Da mesma forma que dinamizamos comunidades com troca de bens – em que uns publicam o que têm para dar, e outros manifestam interesse em receber –, por que não nos ligamos em redes de facilitadores?
Até 2020 nunca tinha publicado um livro, nem conhecia quem o tivesse feito. Por isso, andei que tempos à deriva, a tentar perceber para onde me virar. Googlei por respostas, aderi a grupos temáticos no Facebook, assisti a tutoriais no YouTube, e, entre acertos, desacertos e ajustes, lá acabei por me desenrascar. Mas sei que o processo teria sido muito mais tranquilo, rápido e eficaz se, à minha volta, houvesse alguém a quem pudesse perguntar: “Como é que fizeste?”.
É com essa consciência que hoje partilho, sempre que solicitado, a minha experiência sobre o mundo das edições de autor, algo que me tem permitido observar as vantagens dessa prática.
O benefício maior está, desde logo, em permitir a construção de um horizonte de possibilidades onde a falta de referências tende a erguer muros de impossibilidade. Afinal, como seguir adiante quando somos levados a acreditar que não há caminho?
Ao mesmo tempo, a quantos labirintos, encruzilhadas e becos sem saída somos poupados graças a mapas e sinalizações?
Se partilhamos direcções para nos orientarmos entre viagens, porque é que não partilhamos, diante das urgências, provações e impasses do dia a dia, as nossas aprendizagens, para ajudar outras pessoas a resolver desafios semelhantes?
Não falo dos nossos amigos e conhecidos – que já fazem parte do nosso circuito de trocas –, mas sim de perfeitos desconhecidos que poderão beneficiar de uma bolsa partilhada de conhecimentos. Ou, escrito de outro modo, um depósito de experiências para disseminar os nossos “saber-fazer”.
No outro dia, por exemplo, numa conversa sobre incumprimentos das companhias aéreas, partilhava como consegui contornar o cancelamento de um voo, exigindo direitos que, até me confrontar com o problema, desconhecia existirem. Também expliquei, há uns meses, como pedi apoio judiciário no site da Segurança Social, experiência a que agora posso acrescentar umas quantas camadas de angustiantes aprendizagens.
Seja como for, o meu ponto é: da mesma forma que dinamizamos comunidades com troca de bens – em que uns publicam o que têm para dar, e outros manifestam interesse em receber –, porque é que não nos ligamos em redes de facilitadores?

Trago a ideia da conversa com a inspiradora Victória Pauferro que, entre desenvolvimentos para apps, se lembrou de criar, em equipa, uma funcionalidade de apoio entre pares, útil para lidar com situações de discriminação.
Na mesma linha inspiracional, saio da 1.ª Assembleia de Cidadãos Migrantes do país, realizada nos últimos quatro sábados em Lisboa, não apenas com as promissoras propostas de acção consensualizadas pelos participantes, mas também com os resultados encorajadores de uma das boas práticas apresentadas nas sessões.
A partir dela, ficámos a saber, tem sido possível desbloquear processos pendentes há anos, muitos aparentemente sem solução.
A “magia” é tão singular quanto plural: diante de casos concretos, partilhados num grupo informal de WhatsApp, trabalhadores da área da imigração, que actuam de norte a sul do país, trocam fazeres e saberes que, mais do que facilitar respostas, humanizam vidas. E confirmam que é com proximidade – e não com teias de adversidade e instituições de desumanidade – que avançamos. Em união.

