Tenho consciência de que faço parte de um jogo que, muitas vezes, me inquieta.
Reconheço a importância da atenção para dar visibilidade aos projetos em que coloco o meu tempo, a minha energia e aquilo em que acredito. Ainda é relevante que as pessoas vejam, leiam, escutem, partilhem. Também faço parte daquilo a que hoje chamamos economia da atenção.
Nos últimos dias, esta questão ganhou uma dimensão muito concreta para mim ao acompanhar a discussão em torno do caso de Jason Arday. Mais do que o caso em si, fiquei a pensar no que acontece quando a vida de uma pessoa passa a ocupar o espaço público e se transforma numa narrativa sobre a qual milhares de pessoas podem opinar.
Porque, no meio de tudo o que é dito, analisado e partilhado, existe uma dimensão que facilmente desaparece: a dimensão humana.
A velocidade com que uma história se espalha, a multiplicação de opiniões e a necessidade de saber, comentar e partilhar fazem com que, muitas vezes, a pessoa desapareça atrás da narrativa.
E o que acontece quando deixamos de olhar para alguém como pessoa e passamos a olhar apenas para aquilo que se diz sobre essa pessoa?
Não sei se temos verdadeiramente consciência do que significa, para alguém e para aqueles que lhe são próximos, ver uma parte da sua vida tornar-se matéria de discussão pública, sujeita a interpretações, julgamentos e consumo permanente.
As nossas emoções também se tornaram matéria-prima económica. Aquilo que nos emociona, indigna ou choca capta a nossa atenção — e a atenção tornou-se um recurso.
Quanto mais uma história nos mobiliza, mais circula. E, nessa circulação, convivem informação, opinião e desinformação. O cálculo parece simples: mais atenção, mais valor.
É aqui que o meu paradoxo ganha outra dimensão.
Eu também faço parte desta engrenagem.
Quero que os projetos em que acredito tenham alcance. Quero que sejam vistos, escutados e discutidos. Sei que, sem atenção, muitas ideias, causas e projetos dificilmente chegam às pessoas.
Mas isso não me impede de perguntar: qual é o custo humano de tudo isto?
Porque uma pessoa não é apenas aquilo que dizem sobre ela, acredito que uma vida não cabe numa só narrativa.
A verdade é que há vidas que continuam depois de as câmaras se desligarem, depois de os jornalistas seguirem para a próxima história, depois de as redes sociais encontrarem um novo assunto para discutir.
A consciência tem que ser chamada a entrar, antes de partilhar, comentar ou julgar, que tal perguntarmos:
Estou a contribuir para compreender ou apenas para alimentar a atenção?
E, sobretudo, consigo continuar a ver a pessoa?


