O que os mapas não mostram
"E dei por mim a pensar: quantas histórias importantes nos passam ao lado, mesmo quando sentimos que nos são próximas?"
Chegámos durante o Festival Músicas do Mundo e fizemos aquilo de que mais gosto quando conheço um lugar novo: caminhar sem pressa.
Descemos até à marginal, onde as tascas se sucediam junto ao mar e, ao fundo, o palco principal aguardava o concerto da noite. A marginal estava cheia de gente. Havia famílias, grupos de amigos, pessoas de todas as idades e de diferentes estilos. Uns passeavam, outros dançavam ao som da música, muitos limitavam-se a conversar enquanto esperavam pelo próximo concerto.
Foi enquanto caminhávamos, sem destino e sem pressa, que comecei a reparar, de forma mais consciente, na presença da comunidade cabo-verdiana.
Sabia que Sines tinha uma forte comunidade cabo-verdiana, mas nunca me tinha interrogado sobre a dimensão dessa presença, nem sobre a história que lhe deu origem. À medida que observava as famílias, as conversas, os pequenos negócios e a forma como tudo parecia fazer parte da vida da cidade, comecei a perguntar-me de onde vinha essa ligação.
Fui à procura da resposta.
Descobri que, na década de 70, milhares de cabo-verdianos chegaram a Sines para trabalhar na construção do porto e do complexo industrial. Muitos vieram à procura de uma oportunidade. Muitos ficaram e ajudaram a construir a cidade que fiquei a conhecer.
À medida que avançava na pesquisa, percebi que esta história não estava apenas nos textos que lia. Estava inscrita na própria cidade: no nome do Bairro Amílcar Cabral, na Associação Caboverdiana, nas pessoas que se cruzavam comigo e na forma como fazem parte da identidade de Sines.
Mais do que conhecer melhor Sines, senti que estava a compreender um pouco mais da história de Portugal e do contributo de uma comunidade que continua a marcar profundamente o país.
Cresci em Portugal, mas com Cabo Verde sempre muito presente em casa. As histórias, as pessoas, os afetos e a cultura faziam parte do meu quotidiano. Ainda assim, não tinha associado Sines a esse capítulo da nossa história comum.
E dei por mim a pensar: quantas histórias importantes nos passam ao lado, mesmo quando sentimos que nos são próximas?
Quantas vezes passamos por um lugar sem conhecermos verdadeiramente as histórias que lhe deram forma? Quantas vezes falamos sobre imigração, integração ou identidade sem sabermos o caminho percorrido por quem ajudou a construir o país onde vivemos?
É por isso que continuo a gostar tanto de viajar. Não porque espere encontrar respostas, mas porque, de vez em quando, um lugar obriga-me a fazer melhores perguntas.
Voltei de Sines com mais curiosidade do que certezas. E, curiosamente, essa pareceu-me a melhor recordação que podia trazer.
No meu trabalho, falo muitas vezes da importância da curiosidade, da escuta e da capacidade de olhar para o outro sem julgamentos. Em Sines lembrei-me de que essa aprendizagem não tem fim. É um exercício diário, que começa quando abrandamos o passo e nos disponibilizamos para ver aquilo que sempre esteve diante de nós.
Este é o maior presente que uma viagem nos pode oferecer. Não apenas mostrar-nos um lugar novo, mas ensinar-nos a olhar com mais atenção para as histórias que esse lugar guarda.


