O último beijo
Talvez precisemos de fazer de cada beijo um verbo individualmente conjugado, em vez de um gesto ritualisticamente convencionado.
Ando a rever uma das séries que mais obsessivamente vivi, de tanto me rever nas relações e ralações. Não sei muito bem como me tornei espectadora militante, mas sei que, quando aconteceu, a história já levava umas boas cinco temporadas de acção.
Percebi mais tarde, entre risos e lágrimas, fúrias e entusiasmos, num sempre surpreendente carrossel de emoções, que encontrei na minha identificação com a autora a raiz da minha identificação com a trama. Por isso fui ficando, até que à curva para a 12.ª temporada – diz-me o Google que foi aí –, desliguei-me, enfurecida com a morte que separou o ‘meu’ par dos pares.
Não sei quanto tempo durou o meu luto pelo Derek, mas lembro-me de regressar uns tempos depois, para espreitar como andavam a Miranda e o Richard, confiante de que por mais enredos que a Shonda inventasse, saberia sempre conservá-los num lugar certo e forte.
É por lá que os encontro à 23.ª temporada de “Anatomia de Grey”, enquanto me reencontro com os dilemas dos primeiros episódios.
Paro numa de muitas inquietações românticas que tiveram o condão de me interpelar: onde fica a memória do último beijo, quando vivemos uma ruptura romântica sem um desligamento de Amor? Apaga-se na dor da separação? Dilui-se em pretensões de arrebatamentos hollywoodescamente exagerados?
Gosto de congeminar à medida que a ficção avança, não apenas por me sentir espicaçada a fazê-lo – espelho meu, meu, o que esta cena devolve do que é meu? –, mas porque muitas vezes ‘resolvo-me’ nela e com ela.
Agora, por exemplo, dou-me conta, mergulhada na lembrança de um certo último beijo, que estamos treinadas apenas para imortalizar o primeiro de todos, no nosso álbum de momentos especiais. Mas, quando tudo acaba de forma inesperada e indesejada, e ainda amorosa, em que gaveta se arruma o derradeiro beijo?

Enquanto vasculho as minhas próprias desarrumações, deparo-me com uma crónica despreparação para despedidas. Será ela própria da natureza humana, gregária, e, portanto, mais talhada para ligações do que para desligações? Ou será, antes, mais um condicionalismo cultural, em que a preparação para o desfecho indesejado se confunde com a programação do desfecho indesejado?
Fantasiamos inícios, descuramos finais e, pelo meio, que realidade escolhemos viver?
Sei que não sonhamos com o último beijo, o mais certo é desconhecermos que o último será o último, e, precisamente por isso, talvez precisemos de fazer de cada beijo um verbo individualmente conjugado, em vez de um gesto ritualisticamente convencionado.
Mas o verbo implica acção – porque o “O Amor é o que o Amor faz”, conforme guia bell hooks –, e, não estaremos nós, nestes tempos de cólera e virtualidades mascaradas de virtuosidades, afectivamente neutralizadas?
Conseguimos amar fora do hábito dos dias? Ou, no meio de tantas rotinas e entropias, atrofiamos o nosso músculo dos afectos? Pode o amor prosperar num lugar de convenções? Ou está condenado a estagnar e morrer, ainda que possa renascer de outra forma?
Alimentada de questionamentos-sentimentos, volto aos dilemas do pequeno ecrã. Agora feliz por me lembrar daquele último beijo.

