Orientar sem perder o meu norte
"Em vários momentos, percebo que não estou apenas a sustentar o percurso dela, mas também a revisitar o meu próprio caminho através das suas dúvidas, hesitações e movimentos de avanço."
Ao longo deste ano, entre diferentes frentes do meu trabalho, assumi também o desafio de ser mentora.
Sou mentora de uma empreendedora moçambicana, que vive em Moçambique, e que, de forma quase inquietante, me devolve a imagem de quem fui — e, em alguns aspetos, de quem ainda sou em processo de construção. Este espelhamento não é apenas simbólico; revela-se na memória e no modo como determinadas questões voltam a surgir através de outra pessoa.
Este tipo de relação de mentoria não se limita ao acompanhamento de objetivos, estratégias ou decisões. Ela abre um espaço relacional onde identidade, história pessoal e consciência se cruzam. E nesse cruzamento, emergem camadas que não seriam facilmente acessíveis noutro contexto.
Em vários momentos, percebo que não estou apenas a sustentar o percurso dela, mas também a revisitar o meu próprio caminho através das suas dúvidas, hesitações e movimentos de avanço. Como se o processo criasse uma espécie de espelho vivo entre tempos, geografias e versões de nós próprias.
Este lugar exige-me uma presença mais refinada. Menos imediatismo na resposta e mais precisão na escuta. Tive que controlar o impulso de resolver. A intenção está na capacidade de sustentar o que ainda está em formação. E, sobretudo, uma consciência muito clara de que a minha forma de intervir molda diretamente o ritmo e a direção do processo.
Sou uma pessoa de pessoas. Sempre fui. O meu trabalho e a minha forma de estar no mundo são profundamente relacionais. No entanto, hoje reconheço com mais maturidade a necessidade de me reservar. De criar espaço interno. De me recolher estrategicamente, para que a intensidade dos processos que acompanho não comprometa o meu próprio eixo de equilíbrio.
Porque os desafios das pessoas que acompanho não me são indiferentes. Pela natureza do meu papel, eles atravessam-me. Não no sentido de os apropriar, mas no sentido de que sou chamada a sustentar clareza onde há dispersão, direção onde há confusão e estrutura onde ainda não existe forma consolidada.
O que me tem exigido um trabalho interno constante de regulação.
Este é, talvez, um dos maiores desafios da mentoria: permanecer próxima sem absorver tudo, sustentar empatia sem perder discernimento, acompanhar sem dissolver o próprio centro. Orientar sem perder o meu norte.
Tenho vindo a perceber que esse norte não é apenas uma bússola profissional. É um lugar interno de alinhamento ético e emocional, ao qual preciso regressar com frequência para não me dispersar no campo do outro. É esse retorno que me permite continuar a servir com clareza, presença e integridade.
Neste sentido, a mentoria não é apenas um exercício técnico ou profissional. Ela aproxima-se do que Audre Lorde pensa como uma ética radical de cuidado e preservação da vida interior: a consciência de que sustentar o outro não pode implicar a erosão do próprio centro. O cuidado do mundo exige também o cuidado de si, como gesto de continuidade e não de exaustão.
E, ainda assim, continuo a aprender, com cada processo e com cada pessoa que se cruza comigo neste caminho.
Acredito que este é o trabalho profundo de quem escolhe estar ao serviço de processos humanos: um exercício permanente de consciência, presença e regulação. Um equilíbrio delicado entre proximidade e distância, entre entrega e preservação, entre condução e escuta.
E, no centro de tudo, a tentativa contínua de orientar sem perder o meu norte.


