Outra vez?
"O que não se ensina também é uma forma de moldar o que se pensa."
Outra vez.
Sinto-me constantemente surpreendida com a não concordância em relação às quotas raciais, ou mesmo com a recorrente conversa sobre meritocracia.
Dei por mim, mais uma vez, a explicar a importância destas medidas — consciente, claro, do que uma pessoa negra que acede a um lugar dito “de prestígio” tem de enfrentar. Em Portugal, onde não existem quotas raciais formais para acesso ao ensino, emprego ou cargos públicos, continuam a surgir comentários pouco informados precisamente quando se fala de “quotas”: “assim só consegue porque há quotas”, “claramente não será escolhido pelo mérito”, “acaba por ocupar o lugar de alguém mais qualificado” ou “no fim, quem trabalha mais é prejudicado para favorecer outros”. Há ainda quem insista: “isso de dar oportunidades com base na cor da pele também é racismo”. Estas narrativas, além de factualmente incorretas no contexto português, revelam um profundo desconhecimento — ou negação — das desigualdades estruturais que continuam a marcar o acesso real às oportunidades.
Em alguns casos, continuo a acreditar que a inconsciência e a falta de conhecimento estão na base deste tipo de opiniões. Mas, sinceramente, vivemos num tempo em que se impõe questionar as nossas próprias crenças e ir um pouco mais além — numa observação mais cuidada, mais coerente, da sociedade em que vivemos.
Recentemente, voltei a ter esta conversa com uma pessoa próxima. Confesso que fiquei bastante irritada ao perceber a sua posição sobre meritocracia e quotas. Não estava à espera. E quando isso acontece, torna-se mais difícil conter a irritação — quase um desespero — por ter de explicar aquilo que, nesta fase da minha vida, me parece básico.
Ainda assim, reconheço - quando se vive na “roda do rato”, é difícil parar para pensar estas questões fundamentais com calma. Até porque fazê-lo implica abrir um portal que, depois, já não se fecha facilmente.
Nem de propósito, eu e a Paula fomos convidadas, para a antevisão da exposição O Fundo do Mundo, da Grada Kilomba na Albuquerque Foundation. Antes da visita, houve uma conversa e, a certa altura, a Grada utilizou a expressão “quotas transatlânticas”.
Essa expressão ficou a ecoar em mim, pois remeteu-me imediatamente para a conversa que tinha tido nessa mesma semana e para a ausência destas discussões — destes termos, destas reflexões, destas indagações — nos espaços que deveriam ser obrigatórios, como a escola, em particular, na disciplina de História.
Basta de falar de África apenas a partir do prisma da escravatura e passar a contar uma história mais completa: uma história que inclua reinos, tecnologias, filosofias, ciências e culturas que existiam muito antes da colonização.
O que não se ensina também é uma forma de moldar o que se pensa.
Não precisamos de reinventar a roda — basta observar experiências já existentes, como no Brasil, onde políticas afirmativas têm sido implementadas como resposta estruturada a desigualdades históricas profundamente enraizadas.
Porque enquanto continuarmos a discutir as quotas como se fossem o problema, evitamos olhar para aquilo que realmente está em causa: as estruturas que sempre distribuíram oportunidades de forma desigual e que continuam, ainda hoje, a fazê-lo de forma bem sórdida.
A meu ver, a questão central não está nas quotas, mas no que elas revelam — que o ponto de partida nunca foi o mesmo, e que chamar “mérito” a isso é, no mínimo, uma simplificação conveniente.
No fundo, não se trata de quotas. Trata-se de justiça e da coragem — ou da falta dela — para reconhecer que nunca partimos todos do mesmo lugar.


