Em miúda idealizava o casamento a partir da festa. Imaginava o vestido bem curto – à imagem da escolha de Stephanie Seymour, no videoclipe “November Rain” –; ao mesmo tempo que ensaiava algumas escolhas musicais. Um pouco menos adolescente, e bastante inebriada pela crescente mercantilização do futebol, comecei a fantasiar também uma cerimónia no Estádio da Luz.
Aliás, cá entre nós, já depois de me ter celebrado e de me continuar a celebrar em tantos looks nada nupciais – em que o vestido é a minha única peça de perdição –; e já depois de ter vivido a experiência de seleccionar hits para animar eventos, enformada por uma longa prática de assediar DJs para tocarem isto e aquilo; convém sublinhar que, no último fôlego dos meus sonhos matrimoniais, só mesmo a possibilidade de um casório abençoado pelo Sport Lisboa e Benfica me manteve no caminho do altar.
Remexo nesta ‘gaveta’ dos planos de boda incumpridos, depois de uma conversa sobre casamentos desfeitos que pareciam perfeitos. Entre o esmorecer de palpitações, o ganhar de novos interesses, o perder de afinidades e tantas outras possibilidades de desencontro quotidiano, quanto da quebra de vínculos afectivos não estará na dificuldade de vivermos e sobrevivermos para além dos planos que fazemos?
Escolhemos casar, escolhendo a pessoa e aceitando crescer com ela, e a partir da relação com ela; ou escolhemos casar, segundo uma construção que fazemos da pessoa e da vida que fantasiamos poder vir a ter do seu lado?
Na prática, conseguimos perceber as nuances que sustentam a nossa decisão? Ou só vivendo?
Regresso ao vestido, à playlist e ao Glorioso e, por mais que vasculhe a gaveta, continuo a não encontrar um único ‘retrato’ do noivo, por mais idealizado que seja.
É então que o espelho me devolve: como queres acolher seja quem for numa casa construída integralmente à tua medida, sem criares espaço para uma nova moldura que seja?
À medida que avanço caminho, e me vejo cada vez mais reflectida nas escolhas que faço, pergunto-me se alguma vez quis casar, ou se apenas via a alternativa a essa opção como um infortúnio, uma sentença de infelicidade, e até de impossibilidade de vida.
Se todas as mulheres adultas e solteiras que conheci enquanto crescia eram vistas como solitárias, enjeitadas e “mal-amadas”, como poderia imaginar outro destino que não o matrimonial?
Hoje sei que da mesma forma que a vida a dois não é garantia de felicidade, a vida a um também não é sinónimo de infelicidade. Pelo contrário, acredito que sem a felicidade a um, não há felicidade a dois que sobreviva para além da fantasia.
Acredito também que o défice de humanidade com que estamos a lidar, em doses global, nacional e localmente insustentáveis, assenta em boa parte numa promessa de Amor romântico, que transforma a procura de par numa espécie de fim em si mesmo.
Assim apartados, conseguimos amar pelo acto de amar? Somos capazes de imaginar uma sociedade sem casamento?
Estas e outras questões remetem-me para o trabalho da politóloga Emilia Zenzile Roig, que tem dedicado várias páginas ao Amor.
Depois de em 2023 ter publicado “DAS ENDE DER EHE. Für Eine Revolution der Liebe” – traduzível para “O FIM DO CASAMENTO. Por uma revolução do amor”; a autora lançou, no ano passado, a obra “Lieben”, dedicada ao poder de “Amar”.
Para quem como eu não entende alemão, mas consegue acompanhar o inglês, aqui ficam dois vídeos que ajudam a conhecer o pensamento de Emilia: no primeiro ouvimo-la numa TEDx Talk, no segundo numa entrevista.
É, contudo, a uma conversa presencial que aconteceu há quase dois anos, em Lisboa, que vou buscar a minha principal filiação à sua tese: a convicção de que Amor e Justiça são, não apenas indissociáveis, mas a via necessária para a Revolução de que precisamos. Humana, humanizada e sustentada em (P)Actos de Amor.