Durante muito tempo, associei espiritualidade à luz, paz, amor, gratidão. E ainda associo. Mas hoje sei que ser espiritual não significa negar a dor — significa ser capaz de atravessá-la com consciência.
Recentemente, uma situação familiar sensível levou-me a refletir profundamente sobre a minha relação com a espiritualidade. Questionei aquilo em que acreditava sobre o que é, afinal, viver uma vida espiritual.
Comecei a observar também como as pessoas à minha volta entendem e praticam a espiritualidade — e percebi como, muitas vezes, esse entendimento pode ser usado para evitar o que dói, o que incomoda, o que é estrutural. Foi nesse processo que encontrei um termo que ressoou profundamente comigo: spiritual bypassing (fuga espiritual).
Descobri-o num vídeo que relacionava este fenómeno com a forma como lidamos (ou evitamos lidar) com os ismos — racismo, sexismo, classismo — em Portugal e no mundo. E fez todo o sentido.
Continuo a acreditar que é essencial cultivarmos uma visão espiritual de nós mesmos — mas com o compromisso de nos tornarmos melhores seres humanos. E isso, para mim, implica também um envolvimento ativo com questões de justiça social. Não podemos continuar a dizer “foram eles que atraíram isso” ou “não é a minha responsabilidade” como forma de evitarmos o desconforto de olhar para o que precisa de ser transformado.
O problema não é a espiritualidade. O problema é quando ela se transforma num atalho — não para a cura, mas para a resignação. Quando usamos palavras bonitas como “aceitação”, “amor” e “elevação” para justificar a nossa passividade. Quando, em nome da paz interior, escolhemos fechar os olhos a realidades que pedem ação, coragem e presença.
Porque aceitar não é o mesmo que desistir. Amar não é o mesmo que calar. E vibrar alto não significa ignorar as feridas do mundo. Quando usamos a espiritualidade para evitar o confronto com a dor — nossa ou dos outros — estamos apenas a anestesiar a consciência. E sem consciência, não há transformação verdadeira.
Espiritualidade com integridade emocional é outra coisa. É a prática constante de olhar para dentro com honestidade. É reconhecer: “estou triste”, “estou com medo”, “estou com raiva” — sem julgamento, sem fuga. É dar nome ao que se sente e, ainda assim, escolher responder com amor. Não um amor ingênuo ou romântico, mas um amor maduro, que inclui limites, verdade e ação.
É também assumir responsabilidade. Responsabilidade pelo que sentimos, pelo que escolhemos, pelo impacto que temos no mundo. Ser espiritual, para mim, é cultivar uma consciência profunda de que não estamos separados — e que a forma como cuidamos de nós está intrinsecamente ligada à forma como cuidamos do coletivo.
Não se trata de estarmos sempre bem. Trata-se de estarmos inteiros. Presentes. Disponíveis para escutar o que dói, sem fugir. Para agir, mesmo com medo. Para sustentar o desconforto de sermos humanos — e ainda assim, escolhermos caminhar com Amor e Consciência.