Quando a Terra Estremece
Há quem sinta medo e há quem, no meio do abalo, encontre uma estranha calma.
Quando a terra estremece, há quem fique paralisado e há quem corra para se proteger. Há quem procure refúgio debaixo de uma mesa e há quem fique à espera, tentando perceber o que está a acontecer. Há quem sinta medo e há quem, no meio do abalo, encontre uma estranha calma.
Os terramotos têm esse poder de nos lembrar que não controlamos tudo. Forçam-nos a parar, a olhar para dentro, a aceitar que, num instante, tudo pode mudar. Fazem-nos reconhecer a fragilidade daquilo que tomamos por garantido e lembrar que a estabilidade é, muitas vezes, uma ilusão confortável.
Tinha acabado uma série de compromissos online e parei para almoçar. Quando me levantei, ouvi um som forte e paralisei no meio do hall de entrada do meu apartamento, para tentar perceber o que estava a acontecer. Não percebi de imediato que era um terramoto. No último que aconteceu, estava nos Açores e não tive essa experiência que muitos descreveram como aterradora.
Só me dei conta do que se passava quando entrei na cozinha e vi a caixa do pão a abanar freneticamente. De repente, pensei: Olha, queres ver que foi um terramoto? Mas o mais estranho foi que não senti medo. Fiquei surpreendentemente calma, apenas a refletir sobre como vivemos numa correria frenética e, num instante, tudo pode desmoronar e perder o significado.
É impressionante como estes momentos parecem um alerta para repensarmos a vida. E, mesmo assim, seguimos a desperdiçar tempo e energia com coisas insignificantes. Passados alguns dias, já ninguém falava do terramoto. O assunto foi rapidamente abafado por outras notícias – as medidas trumpianas, a guerra na Ucrânia e a Palestina. Como se nada tivesse acontecido. Como se, por um breve instante, não tivéssemos sido sacudidos, literalmente, para nos lembrarmos da urgência de viver com mais presença e propósito.
Os terramotos chegam sem aviso e obrigam-nos a repensar a forma como construímos a nossa vida. E, ainda assim, seguimos a erguer edifícios, a confiar no chão que pisamos, a acreditar que o amanhã será igual ao hoje. Mas mais cedo ou mais tarde, algo nos abala – seja num tremor discreto ou num grande sismo que nos obriga a reconstruir tudo de novo.
E não é assim que acontece com as conversas mais transformadoras? Às vezes, um diálogo inesperado faz estremecer as nossas certezas. Uma pergunta poderosa pode criar fissuras na forma como sempre olhámos para o mundo. Uma história partilhada pode fazer desabar preconceitos antigos e abrir espaço para algo novo.
N’O Tal Podcast, acreditamos que estas conversas são fundamentais. Algumas chegam devagar, tocam suavemente, como pequenas ondas que reformulam a nossa paisagem interior. Outras são como um terramoto: sacodem-nos, despertam-nos para novas perspetivas, desafiam-nos a reconstruir narrativas que já não nos servem. Mas, independentemente da forma como chegam, todas deixam uma marca.
É por isso que escolhemos criar este espaço de escuta e partilha. Queremos trazer histórias que ressoem, que abram caminhos, que nos ajudem a entender melhor quem somos e como podemos viver com mais autenticidade. Acreditamos que cada conversa tem o potencial de gerar impacto – às vezes subtil, outras vezes sísmico. E é nessa interseção entre o inesperado e o necessário que as maiores transformações acontecem.
Tal como num terramoto, onde há destruição, há também a possibilidade de reconstrução. Onde há abalo, há espaço para inovação. No caos aparente, existe a oportunidade de criar algo mais alinhado com a nossa essência. O desafio está em não temer a mudança, mas sim aprender a navegar por ela com curiosidade e coragem.
E se, em vez de resistirmos aos abalos, víssemos neles oportunidades de crescimento? E se aprendêssemos a confiar na nossa capacidade de reconstrução, não apenas das nossas estruturas físicas, mas também das nossas ideias, das nossas relações, da nossa forma de estar no mundo?
O propósito d’O Tal Podcast é precisamente esse: trazer conversas que provocam, que mexem connosco, que fazem a terra estremecer dentro de nós. Porque, no final, o que realmente importa não é evitar os tremores, mas sim o que fazemos depois que eles acontecem.