Quantas pessoas uma pessoa tem?
À medida que abro e fecho ficheiros, minimizo e maximizo janelas, estranho a expressão de rostos que já foram íntimos e se tornaram desconhecidos. Penso na vida que não cabe em fotos nem em palavras.
A pergunta dá o mote para uma das publicações que acompanham a minha presença nas redes sociais: Quantas pessoas uma pessoa tem?
Recupero-a enquanto vasculho o meu arquivo de textos, numa operação de resgate de ideias que ficaram adormecidas, enquanto outras foram acordando para a vida.
Surpreendo-me com o que em tempos pensei, problematizei e planeei – às vezes a solo, noutras em dupla, e também em equipas múltiplas – e, ao contrário do que poderia supor, não sinto ponta de frustração pelo tanto que ainda quero concretizar. Em vez disso, encontro o que sou a cada projecto à espera de acontecer, ao mesmo tempo que, nesse reconhecimento, renovo energias para fazê-los acontecer.
É então que me detenho nessa mesma questão de partida, que me encaminha para outras interrogações. Com quem acontecemos e fazemos acontecer? Onde estão as nossas redes verdadeiramente – e não virtualmente – sociais? No fundo, quantas pessoas uma pessoa tem?
Em 2024, ao escrever sobre essas contas, de um ângulo estritamente profissional, partilhei o quanto multipliquei desafios de trabalho a partir de um convite para assinar uma crónica no Gerador, plataforma que me abriu um lugar no júri do “Pitch Me!”. Para quem não conhece a iniciativa, ficam os créditos: é um programa de desenvolvimento de escrita para o cinema e audiovisual, promovido pela Academia Portuguesa de Cinema, em parceria com a Netflix.
Mais de dois anos depois dessa experiência, e de regresso à pergunta “Quantas pessoas uma pessoa tem?”, dou por mim a remexer velhos álbuns de fotografias, esquecidos entre pastas armazenadas. Encontro-me perdida nas memórias, porque todas me devolvem partes da minha história – até mesmo aquelas que parecem pertencer a outras vidas, e que há muitos capítulos já não se actualizam.

À medida que abro e fecho ficheiros, minimizo e maximizo janelas, estranho a expressão de rostos que já foram íntimos e se tornaram desconhecidos, recordo viagens, férias, jantares, noitadas e, numa miríade de afectos, celebro os encontros, em vez de lamentar desfechos de desencontro. No embalo dessas recordações, penso na vida que não cabe em imagens nem em palavras, e sei que é nela que habitam as “minhas” pessoas.
Umas fazem parte da rede de ligações mais antigas que conservo – iniciada entre palpitações adolescentes –; algumas trazem afinidades universitárias; outras somam-me em cumplicidades jornalísticas; e muitas crescem no espaço de 1001 lutas.
Seja onde e como for, as pessoas que ‘tenho’ mostram-me que, ainda que avancemos por estradas diversas, encontramo-nos sempre na mesma direcção. Por isso não consigo contar a minha história sem elas. E com elas confirmo que por mais que as distâncias próprias da vida adulta – dominada por rotinas de trabalho, conjugalidades e parentalidades – sejam profundamente desafiantes, elas só se tornam fracturantes quando seguimos caminhos opostos.
Saio do fim-de-semana com essa convicção reforçada, depois de um jantar com um dos núcleos centrais das “minhas” pessoas do mundo pré-redes sociais. Temos profissões, vidas familiares e moradas completamente diferentes – incluindo fora do país –, mas partilhamos um espaço de encontro que se tornou tão raro quanto caro: uma amizade que não cobra poses, nem se mede por likes e comentários. Das pessoas que somos.

