Qual o oposto de Amor?
À distância de uns ansiados dias de férias, horroriza-me a horda de notícias, posts, reacções e comentários sobre o casamento da deputada Eva Cruzeiro e da arquitecta e criadora de conteúdos digitais.
Entre retiros, workshops e círculos de mulheres, num contínuo de experiências partilhadas de desenvolvimento pessoal, a questão ia e vinha, em modo boomerang: qual o oposto de Amor? Também repetidamente, naquele modo automático que robotiza tantos momentos nossos de cada dia, a resposta foi irrompendo assertivamente: “Ódio” para algumas pessoas, “Indiferença” para outras. A estas duas opções, sempre presentes, volta e meia juntavam-se outras hipóteses menos convergentes e diria que, justamente por isso, mais intelectual e emocionalmente estimulantes.
Parei no medo, interpelada pela evidência empírica de que trava, bloqueia e, no limite, paralisa a nossa disponibilidade para viver o Amor.
Amamos, mas temos medo de não ser correspondidos, por isso escondemos sentimentos. Amamos, mas temos medo de ser rejeitados, por isso não tomamos a iniciativa. Amamos, mas temos medo de ser abandonados, por isso silenciamos inconformidades. Amamos, mas temos medo de ser ou voltar a ser magoados, por isso não nos entregamos inteiramente. Amamos, mas temos medo da opinião dos outros, por isso usamos, como se fossem nossas, medidas que não nos servem.
Amamos, mas até que ponto vivemos o Amor?
Parece-me que pouco, e – descontada a generalização – isso ajuda a explicar o muito que nos ocupamos dos amores alheios. Seja dos casamentos e das traições, seja dos divórcios, flirts, sexualidades e toda a sorte de intimidades.
Quem vive o Amor – a começar pelo próprio – não só dispensa para si normatividades esvaziadoras de humanidade, como reconhece para os outros o direito de viver segundo as suas próprias escolhas e especificidades.
Pelo contrário, quem tem medo de viver o Amor vê em quem o vive uma ameaça, uma perturbação da ordem, um erro à espera de correcção ‘superior’. E é assim que, refugiados em medos, vamos morrendo e matando.

Como entender que, num mundo em que os discursos de ódio andam a soldo de partidos de extrema-direita, interesses económicos e audiências mediáticas – e em que o empobrecimento acentuado das populações e a subtração de direitos civis se converteram em políticas de Estado – , seja a celebração do Amor entre duas pessoas a despertar interesse e acalorados debates?
À distância de uns ansiados dias de férias, agora intercalados com serviços mínimos de escrita, horroriza-me a horda de notícias, posts, reacções e comentários sobre o casamento da deputada Eva Cruzeiro e da arquitecta e criadora de conteúdos digitais Naima Pacheco.
Planeei, a este propósito, recomendar a leitura de um texto tão certeiro quanto viral, só que, para meu espanto, acabo de perceber que a publicação desapareceu sem deixar rasto. Não sei se por remoção do autor ou denúncia dos seus detractores, mas, seja como for, é inegável que o coro homofóbico de condenação conseguiu silenciar a declaração de Amor a quem vive o Amor.
E, com esse ruído, acentua-se, aos meus ouvidos, o alerta de que em vez de nos limitarmos a mobilizar e canalizar energias contra o ódio, deveríamos confrontar os medos que nos impedem de viver o Amor.
Enquanto o faço, dou por mim, em toda a heteronormatividade que me protege, a ceder, vezes e vezes, a múltiplos medos – da rejeição ao abandono, passando pelo julgamento. Também por isso, celebro a coragem de quem, diante de afectividades violentamente demonizadas e até criminalizadas, escolhe Amar-se e Amar, e se recusa a viver num prolongado estado de estertor. Pelo direito a ser feliz.

