Quem vem depois? Em 2026 procuremos a segunda pessoa
“Procure a segunda. Se não vem ninguém depois, não tem mudança”.
Ao mesmo tempo um manifesto e um desafio, a campanha propõe: “Procure a segunda”. Benedita da Silva, deputada federal do Brasil, dá a cara pela iniciativa, lançada a partir de um necessário questionamento: “Quem vem depois?”.
Entre esta pergunta, que nos convida a reflectir, e aquele convite à acção, que nos insta a procurar, encontramos a intervenção do Geledés - Instituto da Mulher Negra.
Desde 1988 em movimento, o Geledés partilha, na sua morada web, como vem ampliando compromissos e posicionamentos “em defesa de mulheres e de pessoas negras, em função do racismo e do sexismo vigentes na sociedade brasileira, que limitam o acesso aos direitos”.
É desta incansável e firme intervenção – fonte de tantas leituras e referências que me acompanham e amparam – que resulta o manifesto-desafio com o qual escolho receber, neste espaço de escrita, o recém-nascido 2026.
Serve-me de exemplo e inspiração a história de Benedita da Silva, assim abreviada pelo Geledés: “Além de lutar pelos direitos das mulheres e da população negra e periférica, é autora de projectos de lei fundamentais – entre eles, o que instituiu o 20 de Novembro como o Dia Nacional da Consciência Negra. Sua actuação e presença são um acto de coragem e resistência”.
A apresentação biográfica, partilhada nas redes sociais, acrescenta que ‘Bené’ se tornou a primeira mulher negra a governar o estado do Rio de Janeiro, cargo que ocupou por nove meses em 2002 e que, mais de duas décadas depois, nenhuma outra pessoa negra voltou a assumir.
É inegável que Benedita da Silva “abriu caminhos”, assinala o Geledés, da mesma forma que reconhece que essa abertura não foi suficiente para inaugurar um novo caminho.
“Representatividade não é ponto final. É ponto de partida”, sublinha-se na campanha, que coloca na pergunta “Quem vem depois?” um importante divisor de águas.
“Se ninguém vem depois, é sinal de que a estrutura continua a mesma. A mudança só acontece quando a presença deixa de ser excepção”.
Para alguém que, como eu, se viu – e ainda vê – demasiadas vezes nesse lugar de excepção, a mensagem não poderia ser mais certeira. Ela, é, aliás, adequada a qualquer contexto de promoção do direito à igualdade, princípio transformado, no actual ciclo político, num alvo a abater, e não numa aspiração colectiva.
Não tem de ser assim, mas será assim enquanto alimentarmos dinâmicas produtivas robóticas, que produzem sociedades cada vez mais individualistas, competitivas e fracturadas. Sociedades em que vale tudo para “ser primeiro” – nomeadamente fingir que bens de nascença são resultado de perseverança, e que privilégio herdado é mérito conquistado –, ao mesmo tempo que se garante que não vem ninguém depois, com políticas que blindam acessos e armadilham oportunidades.
É por isso vital que, em vez de investirmos no seguidismo e endeusamento de figuras só por serem excepção – iludidos por padrões de adulação – olhemos para a pessoa que vem atrás, como via de transformação. Justamente como sugere o Geledés: “Procure a segunda. Se não vem ninguém depois, não tem mudança”.
Nesta alvorada de 2026, em que o Ano Novo escancara velhos imperialismos, desejo que sejamos capazes de continuar a procurar, para fazer da defesa da Humanidade a nossa regra. Sem excepção.
Ou, transformando em votos as palavras de Rita Cruz, convidada do último episódio d’ O Tal Podcast, espero que sejamos capazes de sair das bolhas entrincheiradas em que nos enclausurámos. “Estamos num sítio de muito umbigo, fechados. Temos de procurar mais o outro”, defende a actriz. Procuremos! Seja ele o segundo, o terceiro, o quarto...porque “a mudança só acontece quando a presença deixa de ser excepção”. A começar pela nossa.



