Uma escola chamada “nós”
Entre a política e a cultura, entre o voto e a música, a ideia que ficou foi a mesma: a convivência democrática não é garantida — constrói-se.
A palavra amor, em oposição ao ódio, pareceu atravessar este fim de semana de formas inesperadas. Deste lado do mundo, Portugal elegeu um novo Presidente da República num contexto de forte polarização política — o país esteve no seu melhor: na escolha da convivência democrática, do respeito e da responsabilidade coletiva. Do outro lado do Atlântico, no palco do Super Bowl, Bad Bunny terminou o espetáculo com uma mensagem simples e poderosa: a única coisa mais forte do que o ódio é o amor.
Entre a política e a cultura, entre o voto e a música, a ideia que ficou foi a mesma: a convivência democrática não é garantida — constrói-se. E constrói-se todos os dias, nas escolhas coletivas e nas relações humanas mais próximas.
Ao entrar numa escola pública do concelho do Seixal, reparei em vários cartazes que comunicavam preocupação com o estado da escola pública. É evidente a inquietação — sobre recursos, condições e reconhecimento. Confesso que, no meio do excesso de informação em que vivemos, já nem sei se parte desta reflexão nasceu daqueles cartazes ou de algo que li recentemente. Mas o sentimento ficou.
Comentei com a pessoa ao meu lado que a escola pública representa uma das expressões mais concretas da igualdade de oportunidades numa sociedade democrática. E é precisamente por isso que me preocupa o que está a acontecer — não por nostalgia, mas por consciência do que está em jogo.
A escola pública é um dos poucos espaços onde a sociedade se encontra na sua diversidade real. É ali que crianças de diferentes contextos sociais, culturais e económicos não apenas aprendem conteúdos, mas têm a possibilidade de aprender a estar umas com as outras — quando existem condições e pessoas capazes de facilitar esse processo. Podem aprender que o mundo não é homogéneo, que é possível negociar diferenças, escutar e cooperar. Podem, muitas vezes pela primeira vez, contactar com o significado concreto da equidade.
Reconhecer o valor da escola pública não significa ignorar as suas fragilidades. A escola pública precisa de adaptação, reformulação e investimento contínuo. Precisa de condições que permitam responder à complexidade das salas de aula de hoje. Precisa, sobretudo, de um compromisso inquebrável com educadores e professores — com o seu bem-estar, a sua valorização e a sua capacidade de sustentar relações educativas significativas.
Quando falo de educação, falo inevitavelmente de futuro coletivo. E quando falo de equidade, falo de responsabilidade partilhada.
Talvez seja por isso que, no meio de um fim de semana marcado por escolhas políticas e por mensagens culturais tão fortes, a palavra amor tenha ressoado de forma tão clara. Não como ideia abstrata, mas como prática social e educativa. Porque é também na escola pública — todos os dias, em pequenas interações — que se decide se a convivência será construída a partir do medo ou do cuidado, da exclusão ou da pertença, do ódio ou do amor.


